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Como será que se sentiriam as pessoas "normais" quando dois dias após pedalar 520 kms sem dormir, tivessem de "abandonar o barco" a 80 kms do fim?
Sinceramente, neste momento em que quero terminar este texto antes de mergulhar num sono profundo, a única coisa que me incomoda são as picadas dos mosquitos. Tantas, que me sinto febril.
À segunda ou vai ou racha. Esta obsessão estava aqui a martelar, horas e horas, dias e noites, desde o ano passado.
Simplifico a descrição do meu brevet em duas partes: as coisas boas e as coisas más.
As Coisas Más:
- O Acidente. Ao chegar ao Porto, seguindo na EN13, a caminho da Estrada da Circunvalação. Um dia tinha de acontecer um encontro errado. Acredito que o condutor apercebendo-se que eu não pedalo depressa pensou que me ultrapassava sem perigo, ao virar à direita no sentido Leça do Bailio, passando pela minha esquerda e acelerou. Manobra perigosa. Eu senti algo a bater-me raspando-me a anca e a mão esquerda; desiquilibrei-me. O pé esquerdo saltou do encaixe e o meu zigue zague provocou confusão no trânsito. Abanei mas não caí, mal refeita do susto que me acompanhou até ao fim do brevet. Penso que pelo ruído caraterístico, o carro terá ficado riscado.
- O "monstro do sono", tanto sono, sobretudo a partir dos duzentos quilómetros, foi-se agigantando a cada hora dominando-me quando me apanhava desprevenida; desviava-me para a rua arriscando uma valente cacetada dos veículos. Resistia, resistia quase sem grande esperança. O sono estava a tomar conta de mim. Tinha lapsos, a sucederem-se com mais frequência.
- O telemóvel. Debatia-me com o perigo de ficar sem contato nas zonas mais isoladas e devidamente aconselhada, esqueci o smartphone em casa e comprei o telemóvel mais básico da loja, daqueles cuja bateria dura vários dios. Era tao básico que nem dei importância ao manual de instruções. Por isso, foram várias as chamadas perdidas pois não sabia qual era a tecla de "atender". Quando tentei enviar mensagem, descobri que tinha de mudar as configurações e parar não era uma boa ideia. Perder certas "competências" pode ser sintoma de cansaço. Tenham cuidado.
- Solidão. Nunca tive problemas em pedalar sozinha; pode-se dizer que aprecio a minha companhia. Acho que este brevet é para se fazer acompanhado por razões de segurança. Passamos por zonas pouco povoadas, de mata, onde temos de pedalar durante longos quilómetros. Nem uma casinha, nem uma paragem de autocarro à berma da estrada para descansar.
- O Silêncio. Pesado, denso, inquietante, apenas quebrado pelo eco do grito dos animais em certas alturas.
- Uma lanterna de 1800 lumens que só esteve acesa durante cinco quilómetros é para deixar triste, pois sessenta euros é dinheiro bom. Safei-me com a luz de 1600 lumens que dia após dia está tão fraca que desconfio que só tem cem lúmens neste momento. Também levava a Cateye a pilhas, mas é um último recurso para não ficar às cegas.
- Os cães a correrem atrás de mim em Sines. Dei um grito tão alto que revelou aos moços que vinham de uma discoteca que o ciclista afinal era uma "ela". Nunca mais tive sossego. Se calhar já estava sob efeito da embriaguês provocada pelo sono e começava a imaginar. Pelo sim pelo não, como eles tinham carro, muita vontade de se divertirem, não arrisquei em seguir até ao Cercal, apanhar mais quilómetros de mata densa e solitária, mais cães vadios e encontros perigosos. Também ouvi uns comentários inquietantes sobre a bicicleta, uma grande máquina, diziam.
- Os malditos mosquitos.
- A Frustração. Bem sei que devia combater esta sensação. Mas não posso evitar. Dei tanto de mim, o que tinha e o que não tinha e não foi o suficiente. Não consigo conformar-me.
As Coisas Boas:
- Os Voluntários deste brevet. Não vou referir nenhum nome em especial, porque guardo de todos as melhores recordações. Muito obrigada, foram fantásticos. (Obrigada pelas fotos, Paulo Gaspar)
- O meu GPS - este tijolinho dakota20, continua a marcar pontos. Depois de muitas brigas e desencontros, acabamos por nos entender. Faço os percursos, guardo-os no aparelho e só tenho de confiar. Nunca me enganei. Que alegria. Adoro-te GPS! (ainda falta perceber bem como meter os waypoints, mas se treinar um bocado nas férias do Verão e chatear algumas pessoas, chego lá).
- O guiador Velo Orange, chegou numa altura providencial. É tão bom pedalar centenas de quilómetros sem dores nas costas. O céu existe mesmo.
- O meu querido Brooks. Quem diria! A primeira vez que olhei para ele, pensei que tinha deitado dinheiro pela janela. Batia nele e parecia uma porta de madeira. Estava aterrorizada. Arrisquei, sujeitando-me a todo o tipo de dores no "legendary break in period" dos Brooks. Uma manhã, 600 kms depois, quando passava creme no selim, sem grande esperança, notei que a pele tinha cedido em alguns pontos. Aleluia. Ainda não está a cem por cento e fiquei agradavelmente surpreendida pois quando mais tempo passava em cima dele, mais conforto sentia. My dear Brooks, I love you.
- As dores nos pés. Passaram. As palmilhas e resultado: um grande alívio. Elas andam ali, basta um descuido que voltam. Poder correr e saltar depois de dois dias a pedalar, quando antes ficava uma semana sem mexer uma palha, é um sonho.
- A minha Nikita, única e incomparável. O nome que dou carinhosamente à minha titânica. Apesar da frustração de ver escapar o Portugal na Vertical por 80 kms, não me esqueço que as maiores conquistas deste ano têm sido aos comandos da minha "randonneuse". Aliás, ter ido mais longe que no ano passado é uma nota desta escolha feliz.
- A companhia de um randonneur do norte (que na sua Litespeed já pedalara conosco no brm 200 do Alto Minho), desde Neiva até muito perto do Porto.
- O numeroso grupo de randonneurs do Porto que reencontrei em Matosinhos. Que pessoal tão fixe. É sempre bom ver-vos. Obrigada pelo apoio e pelos petiscos deste posto de controlo. Obrigada ao Jacinto Oliveira que me guiou até quase à Ponte D. Luís.
- O vento do norte pelas costas. Ó pá, obrigada pelo empurrão.
- Hotel Sinerama em Sines. Andei às voltas por Sines à procura de um lugar para ficar. Um grupo de jovens ruidosos, que saía de uma discoteca aconselhou-me e eu tratei de afastar-me deles o mais depressa possível. Eu disse ao rececionista do turno da noite, que não ia pagar setenta e dois euros para lá ficar duas horas até o Sol nascer. Compreensivo, indicou-me uma parede para encostar a Nikita e uma cadeira para descansar numa sala de estar, onde adormeci durante duas horas à espera do autocarro de volta para casa. Antes disso, quis saber pormenores sobre os Randonneurs Portugal.
- My big moment. Superei tanta coisa. Quando cheguei a Lisboa, com 400 kms, sentia-me muito bem. Atravessei o Tejo, preocupada: ja era tarde e tinha de pedalar depressa para cobrir os quarenta quilómetros até Setúbal antes de encerrar este Posto de Controlo. Senti alguma dificuldade em chegar ao Cais de Sodré e, desesperada estava a ver os barcos que ia perdendo.
Cacilhas! Eram cinco horas e meia. Novamente o trânsito de domingo intenso e difícil. Na minha vida de ciclista só pedalei no troço complicado entre a Cova da Piedade e Corroios, aí umas três vezes e procuro sempre caminhos alternativos. Respirei fundo, aproveitando o sinal verde e avancei. Tinha de cumprir a qualquer custo o percurso. Consegui atravessar e só por isso senti um gozo muito especial, pois nem uma vez tive de desmontar da bicicleta. Uma sorte inacreditável Semáforos verdes e sem autocarros a entupir a estrada, despachei-me como nunca imaginei ser capaz! (hum...podias apanhar o comboio, poupavas bastante tempo, segredou-me o diabo ao ouvido. E para enganar a quem?, perguntei. A piada dos brevets é não serem provas. Só há duas hipóteses: conseguir e não conseguir. Quem faz batota sabe sempre que não consegue ao contrário de quem aceita as regras, que vai tentando uma, duas, três, as vezes que forem precisas, pois sabe que ha-de conseguir no dia certo).
- Ah, claro! a Super Lua Cheia. Vi-a na Comporta, uma bola enorme, cor de salmão.
- Os gelados. Há lá coisa melhor que saborear um gelado numa esplanada, contemplando a vida?
- Chegar a casa. Fazer um relatório de danos e concluir que houve mais ganhos que perdas.
- Por que será que me meto nestas coisas? Para mim, o desafio em si, é uma motivação extra. Nunca conto com ajuda, tenho de pensar sempre numa solução, para tudo. Naqueles momentos difíceis, dou por mim a pensar que até podia estar noutro lugar aparentemente mais seguro a fazer outra coisa menos arriscada. Poder, até podia, mas não era a mesma coisa.
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Nota: a médica (uma miúda nova) que me atendeu nas urgências do Centro de Saúde, ficou alarmada com o inchaço anormal provocado por picadelas dos mosquitos, nas pernas, braços, cara, mãos. Perguntou-me onde arranjara. Devia ser a sua única paciente da tarde, no Centro de Saúde quase deserto. Contei-lhe as minhas aventuras do fim de semana e ela disse que conhecia bem a zona e, mesmo de mota, jurou que nunca mais passava ali sozinha de noite. Uns dias com pomadas e comprimidos, pode ser que as feridas sarem e as febres passem. Malditos mosquitos!

