“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Duas pernas no Alentejo e faltou um bocado para a terceira

Em Alcácer fui feliz (mas não sabia), há muitos anos atrás. No regresso também fui... e o regresso não é passar na estrada ao lado, mas ficar, dormir, comer e sentir a picada de um mosquito. Só faltaram os mosquitos, não quiseram nada comigo desta vez.

Eram três pernas longas, cada uma com mais ou menos 200 quilómetros. Depois de completar cada "perna", regressavamos a casa isto é ao aconchego da tenda, para um breve sono reparador, uma refeição preparada por voluntários simpaticos e voltavamos a partir. A sensação de nunca estarmos sozinhos, que tinhamos pessoas à nossa espera, que nos animavam, estragavam-nos com mimos, foi um reforço positivo que não tem preço. Lembro-me de chegar exausta, com dores musculares na perna, uma cãimbra e outras dores que nem sei de onde vinham e depois de uns minutos sentada, a conversar, voltar a partir tão fresca como se estivesse a começar brevet.
As subidas no Alentejo são tramadas.
Conquistei os primeiros 200 quilómetros com sinais de desgaste. O vento já zumbia na cabeça.

Dormi uma hora.
Acordei e a noite caía. Ia pedalar nos 200 quilómetros seguintes, totalmente noturnos. Estava um frio de rachar. Os voluntários foram à minha sacola e escolheram as roupas. Vestes isto e não isto; calças estas luvas, etc.- foram fantasticos. Desapareci naquela roupa e camuflada sob a balaclava preparei-me para mergulhar na noite e percorrer o trajeto Alcacer-Comporta-Melides-Brescos-Sines e voltar. No ano passado tive medo. Este ano, embora receosa, o medo foi atenuado pela presença dos outros randos que regressavam. Avistava os farois das bicicletas e saudava: "Como está o caminho?". Resposta: "Tranquilo". Em Brescos, um cão apareceu do nada, silencioso e ensaiou a perseguição; dei um grito tão estridente que assustou o cão e acordou a aldeia.
As sombras da mata foram a minha companhia silenciosa durante esta travessia. Ter dormido uma hora fez uma diferença enorme. Ia bem disposta, descontraída cantarolando a música da Honey Ryder :

"Underneath the mango tree
Me honey and me can watch for the moon
Underneath the mango tree
Me honey and me make boolooloop soon

Mango, banana and tangerine
Sugar and ackee and cocoa bean
When we get marry we make them grow
And nine little child in a row
"

Quando passava um carro, calava-me para não denunciar o timbre feminino.
Ir a Sines e voltar de noite, foi bastante tranquilo. Curiosamente, o vento deu-me tréguas. Deixei de ouvi-lo a assobiar entre as árvores.

A partir daqui, as coisas começaram a correr mal. Primeiro porque não dormi e segundo devido a uma sensação muito dolorosa e incomodativa no músculo da coxa esquerda. Os voluntários foram os meus anjos da guarda. Encheram-me o prato com massa, encheram-me a camelbek com água, uma mão massajou o músculo dorido da perna, num único movimento e a dor desapareceu. Praticamente puseram-me em cima da bicicleta e empurraram-me dali para fora. Ainda me ria destas cenas muitos quilómetros depois a caminho do Torrão, pois custava-me perceber como uma morta de dores tinha ressuscitado e estava ali a pedalar quase fresca. Acho que o único erro, foi não ter atestado o ar nos pneus e ter levado a bomba errada.

Nunca me vou esquecer por muitos anos do trajeto entre Alcacer do Sal e o Torrão. Só 30 quilómetros. Oh pá! 30 quilómetros, o que é que isso custa? Ja tinha pedalado 400 quilómetros. Também não tinha dormido. O vento, o frio e o calor queriam brincar às escondidas comigo. A estrada parecia uma sucessão de piscinas. Depois de subir uma rampa inclinada, estar rota das pernas e morta de calor, seguia-se uma descida longa, o windchill e antes de ter tempo para descansar já estava a iniciar outra subida longa. E o Torrão, diziam as placas parecia já ali. Eu pensava que tinha identificado os meus adversários e estavam sob controlo. Mas não. O monstro do sono agigantou-se e sem exagero, comecei a ter ilusões. Devia estar semi adormecida e às tantas procurava avidamente por uma árvore, um arbusto para dormir. Ali, não faltam árvores, mas nenhuma cumpria os meus parâmetros e eu ia pedalando. Vi uma velha inclinada a apanhar ervas e quando cheguei perto, a imagem transformou-se num tronco seco. E foram várias cenas destas. Fiquei preocupada. Bastante. Passavam poucos carros. Aquilo é praticamento deserto. Vi uma carroça puxada por burros e um velho sentado. Seria outra ilusão? agora era real. "Bom dia" - cumprimentei, mas o velho continuou mudo e desconfiado. Nem um restaurante com uma esplanada à beira da estrada. Só bolotas.
Finalmente comecei a detetar sinais de presença humana. O Torrão fica num lugar alto e para atravessar a localidade é preciso enfrentar a subida, obviamente e muitos metros de um empedrado que deixa os miolos dolorosamente remexidos. O sono ficou momentaneamente suspenso nesta travessia agitada. Afinal podia dormir mais tarde - pensei. Devia prosseguir até Ferreira do Alentejo. Mais 29 quilómetros de piscinas diabólicas. Sempre desconfiei dos números acabados em nove: jovem de 69 anos, só custa 599 €, por exemplo. Sozinha na bela estrada, sofrida e solitária, o sono voltou a rondar e reapareceram as ilusões. Parecia ver silhuetas entre os troncos dos sobreiros e quando olhava melhor desfaziam-se. Ai que sono. Se apanho uma cama, caio nela como uma pedra- resmungava desesperada.

O Torrão tinha ficado para trás e só pedalara 4 quilómetros. Quando vou da minha casa a Setúbal, percorro 50 quilómetros que passam mais rápidos que um fósforo. Ali, a estrada parecia avarenta, agarrada aos quilómetros que demoravam a somar no visor do GPS. Outra ilusão claro. Eu é que devia pedalar mais depressa.
Comecei por ouvir um ruído estranho. Demorei alguns metros a admitir. Parei, desmontei, encostei a Nikita a uma árvore cheia de bolotas no chão, examinei o alfinete cravado no pneu dianteiro.  Respirei fundo. Estava a fazer o que era preciso, e desgraçadamente a bomba não fazia a pressão suficiente;  lembrei-me de ligar para Alcácer, porque a minha média real vinha a baixar desde Sines e quase batia no vermelho. Vais chegar fora do controlo - disseram. Vieram buscar-me.

Só não consigo perceber uma coisa: nos brevets anteriores em que tive de desistir, chorei baba e ranho. Desta vez, nem sinais de desgosto, vestígios de raiva, frustração, etc.. apenas a sensação de um fim de semana fantástico, a pedalar 440 quilómetros, com pessoas tão boa onda.
Obrigada Pedro, Filomena, Rui B. Paulo, e a lista é interminável de tão bons voluntários. E pelo convívio com os bravos randos, os que acabaram e os que vão acabar. Eramos 14 e cerca de metade concluíu o brevet.

A minha cue sheet:


Rando sketch


Regresso a Alcácer do Sal e às memórias da adolescência.
Ainda me lembro destes figos, sobretudo dos picos.
De partida para Sines

 Alcácer do Sal - Torrão. As belas vistas compensam a dureza do sobe e desce, o vento e os sintomas de privação de sono.


"I can’t always win, but I can always learn and grow"
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Conclusão: I have an unfinished business!

domingo, 4 de maio de 2014

ALQUEVA 400 kms - 3 de maio 2014

"Não ando mesmo nada, estou parada. O meu motor não tem grande potência. O que faço aqui no meio de tantos craques?" - é o pensamento miserável que me ocorre sempre que vejo toda a gente a passar-me à frente e a chegar antes de mim. Vai ser sempre assim e não se fala mais nisso.

Para marcar presença no meu 5º brevet randonneur de 2014, e conseguir chegar ao fim com o mínimo de sofrimento possível, juntei a experiência dos brevets anteriores, carradas de chamois, segui os conselhos úteis do "sleep, eat and drink some days before the ride", bom senso e toneladas de cautela. O brevet só acaba no fim - pensei, quando entrego o cartão amarelo de prova de passagem no último posto de controlo. Até lá a distância conquista-se quilómetro a quilómetro, uma subida depois da outra, vamos deixando para trás vilas, aldeias, pessoas que nos observam e outras que nos saúdam, polícias que perguntam o que fazemos àquelas horas na estrada, cães ferozes e cães fofinhos, paisagens de sonho, episódios caricatos e os lugares onde se come.
A Nikita aos coices, ansiosa por mais uma aventura

Neste brevet contei com um novo adversário: uma alergia da Primavera. Algo inédito, porque tolero praticamente tudo. A garganta inflamou-se, a voz começou a sair rouca e com fanicos, o nariz decidiu pingar, e a pele irritou-se abrindo erupções descontroladas. Com este mal estar físico apresentei-me à meia noite em VFranca Xira para pedalar 400kms. 

Arranjei companhia. O José, um vizinho meu, ainda estreante nos brevets, além de partilhar comigo o transporte, também me acompanhou, apesar do meu fraco andamento. Isto garantiu-me uma presença humana por perto durante a noite, durante o dia, nas etapas mais difíceis, nos quilómetros mais lentos e na contemplação das belas paisagens. A minha gratidão não tem fim. O José vinha bastante animado pois trazia uma bicicleta KTM de estrada, recentemente adquirida, que ia ser estreada num evento de longa distância. Apreensiva, olhei para o quadro (com os tons quentes em laranja que tanto agradam aos Carneiros como eu) e para os pedais de estrada, ambos em carbono, rezando para que corresse tudo bem.

Para que não restassem dúvidas, coloquei logo as cartas na mesa dizendo ao José que não sou nenhuma guerreira da estrada e que pedalo devagar. Ele não pôs obstáculos e mostrou-se compreensivo. 

Os postos de controlo foram: VFXira (zero kms) - Mourão (170 kms) - Moura (200 kms) - Viana do Alentejo (270kms) - VFXira (410kms).

O noite apresentou-se escura, com a Lua numa fase inicial de Quarto Crescente, que mal se notava. No manto noturno limpíssimo, ricamente bordado, as estrelas cintilavam nos lugares remotos e pouco iluminados por onde pedalamos. Senti o calor, o vento fraco e suspirei de alívio. Na verdade, o vento só nos castigou durante a travessia do Alqueva; no regresso, o vento soprou fresco e ameno como uma bênção neste sábado insuportavelmente quente. Um dia quase perfeito.

O nascer do Sol no Alentejo

Teria sido um dia perfeito se logo nos quilómetros iniciais perto de Vendas Novas, o pedal esquerdo Keo do José não se tivesse danificado. Ele nao desistiu, apesar do desconforto da pedalada. Fez o brevet todo com o pé a fugir do pedal.
A Nikita no Alqueva e o emplastro a estragar a foto

Fui conquistando os quilómetros um a um, de forma ponderada, para não deitar as coisas a perder.. Queria uma redenção do falhanço do brevet 300 do Barroso. Parei quando todos pararam. Comi, bebi e descansei sempre que pude. Até ao fim nada está garantido. 


O José e a sua KTM a chegar a Moura

Moura - pormenor

A Nikita em Moura

Último adeus ao Alqueva; o calor intenso e os quilómetros começavam a fazer estragos no corpo e na cara

As vilas que deixamos para trás.

Nunca se sabe o que pode acontecer de repente. Com este pensamento, entrei na reta do Cabo para completar os últimos dez quilómetros. A poucos metros à minha frente, pedalavam o José e o Nuno, um moço com uma bicicleta de BTT que se juntara a nós em Viana do Alentejo. Corria tudo tão bem. O José estava bastante animado e confiante. Eu continuava a pedalar com cautela no meu ram ram. Detesto aquela estrada, com carros e camiões que passam disparados, a velocidades arrepiantes. As bermas estão em mau estado, com cascalho solto, areia e alcatrão irregular. Não vou festejar nada, o brevet só acaba no fim - repetia mentalmente esta ladainha. Quando já tinhamos 405 quilómetros e só faltavam mais cinco para concluir, precisamente no mesmo local onde no ano passado dei o bonk, um bocado de alcatrão saliente, fez saltar a bicicleta do José. Vi as coisas acontecerem à minha frente muito depressa, como num filme: o José praticamente voou da bicicleta e foi cair no meio da estrada. Cada vez mais perto, aproximava-se um enorme camião em grande velocidade; dei um grito e contornei o corpo do José caído na estrada pela esquerda. Ao ver as luzes da minha bicicleta e o ciclista no chão, o camionista travou e foi por um triz que não aconteceu o pior. Fiquei em estado de choque.  O José levantou-se espantosamente, sem um único arranhão. Examinou a bicicleta e aconteceu o que ele temia: o quadro em carbono sofrera uma fratura no top tube.

Após uns instantes, o José decidiu arrancar sem dizer uma palavra e atrás seguimos eu e o Nuno em silêncio, mortificados. 

Foi desta forma estranha que concluímos o brevet, com um episódio nos últimos quilómetros que me fez gelar o sangue.

Um brevet só acaba no fim. Não se deve festejar antes de entregar a prova de passagem no último posto de controlo.

O melhor de tudo: terminamos e voltamos para casa.
Das duas vezes em que participei, consegui concluir, e até ao momento é dos brevets que me dá mais prazer. Uma frase que exprime a razão de gostar tanto desta distância:  "I like the 400K because it packs almost every aspect of randonneuring into a one day package. A 400K invevitably includes several hours of night riding, numerous controls and the need to manage your food and liquids. Additionally, the time limits are generous enough that there is plenty of time for conversations and longish meal breaks with other riders. ", Dan Diehn.

Agradecimentos aos voluntários que fazem "andar" o brevet, alguns dos quais não cheguei a ver. Aos companheiros do caminho: obrigada ao José, que é um santo e me aturou todo o dia (não é facil) e ao Nuno, com um espírito positivo tão contagiante e que nunca demonstrou sinais de cansaço apesar das rodas de btt não facilitarem muito.

sexta-feira, 2 de maio de 2014