“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 4 de maio de 2014

ALQUEVA 400 kms - 3 de maio 2014

"Não ando mesmo nada, estou parada. O meu motor não tem grande potência. O que faço aqui no meio de tantos craques?" - é o pensamento miserável que me ocorre sempre que vejo toda a gente a passar-me à frente e a chegar antes de mim. Vai ser sempre assim e não se fala mais nisso.

Para marcar presença no meu 5º brevet randonneur de 2014, e conseguir chegar ao fim com o mínimo de sofrimento possível, juntei a experiência dos brevets anteriores, carradas de chamois, segui os conselhos úteis do "sleep, eat and drink some days before the ride", bom senso e toneladas de cautela. O brevet só acaba no fim - pensei, quando entrego o cartão amarelo de prova de passagem no último posto de controlo. Até lá a distância conquista-se quilómetro a quilómetro, uma subida depois da outra, vamos deixando para trás vilas, aldeias, pessoas que nos observam e outras que nos saúdam, polícias que perguntam o que fazemos àquelas horas na estrada, cães ferozes e cães fofinhos, paisagens de sonho, episódios caricatos e os lugares onde se come.
A Nikita aos coices, ansiosa por mais uma aventura

Neste brevet contei com um novo adversário: uma alergia da Primavera. Algo inédito, porque tolero praticamente tudo. A garganta inflamou-se, a voz começou a sair rouca e com fanicos, o nariz decidiu pingar, e a pele irritou-se abrindo erupções descontroladas. Com este mal estar físico apresentei-me à meia noite em VFranca Xira para pedalar 400kms. 

Arranjei companhia. O José, um vizinho meu, ainda estreante nos brevets, além de partilhar comigo o transporte, também me acompanhou, apesar do meu fraco andamento. Isto garantiu-me uma presença humana por perto durante a noite, durante o dia, nas etapas mais difíceis, nos quilómetros mais lentos e na contemplação das belas paisagens. A minha gratidão não tem fim. O José vinha bastante animado pois trazia uma bicicleta KTM de estrada, recentemente adquirida, que ia ser estreada num evento de longa distância. Apreensiva, olhei para o quadro (com os tons quentes em laranja que tanto agradam aos Carneiros como eu) e para os pedais de estrada, ambos em carbono, rezando para que corresse tudo bem.

Para que não restassem dúvidas, coloquei logo as cartas na mesa dizendo ao José que não sou nenhuma guerreira da estrada e que pedalo devagar. Ele não pôs obstáculos e mostrou-se compreensivo. 

Os postos de controlo foram: VFXira (zero kms) - Mourão (170 kms) - Moura (200 kms) - Viana do Alentejo (270kms) - VFXira (410kms).

O noite apresentou-se escura, com a Lua numa fase inicial de Quarto Crescente, que mal se notava. No manto noturno limpíssimo, ricamente bordado, as estrelas cintilavam nos lugares remotos e pouco iluminados por onde pedalamos. Senti o calor, o vento fraco e suspirei de alívio. Na verdade, o vento só nos castigou durante a travessia do Alqueva; no regresso, o vento soprou fresco e ameno como uma bênção neste sábado insuportavelmente quente. Um dia quase perfeito.

O nascer do Sol no Alentejo

Teria sido um dia perfeito se logo nos quilómetros iniciais perto de Vendas Novas, o pedal esquerdo Keo do José não se tivesse danificado. Ele nao desistiu, apesar do desconforto da pedalada. Fez o brevet todo com o pé a fugir do pedal.
A Nikita no Alqueva e o emplastro a estragar a foto

Fui conquistando os quilómetros um a um, de forma ponderada, para não deitar as coisas a perder.. Queria uma redenção do falhanço do brevet 300 do Barroso. Parei quando todos pararam. Comi, bebi e descansei sempre que pude. Até ao fim nada está garantido. 


O José e a sua KTM a chegar a Moura

Moura - pormenor

A Nikita em Moura

Último adeus ao Alqueva; o calor intenso e os quilómetros começavam a fazer estragos no corpo e na cara

As vilas que deixamos para trás.

Nunca se sabe o que pode acontecer de repente. Com este pensamento, entrei na reta do Cabo para completar os últimos dez quilómetros. A poucos metros à minha frente, pedalavam o José e o Nuno, um moço com uma bicicleta de BTT que se juntara a nós em Viana do Alentejo. Corria tudo tão bem. O José estava bastante animado e confiante. Eu continuava a pedalar com cautela no meu ram ram. Detesto aquela estrada, com carros e camiões que passam disparados, a velocidades arrepiantes. As bermas estão em mau estado, com cascalho solto, areia e alcatrão irregular. Não vou festejar nada, o brevet só acaba no fim - repetia mentalmente esta ladainha. Quando já tinhamos 405 quilómetros e só faltavam mais cinco para concluir, precisamente no mesmo local onde no ano passado dei o bonk, um bocado de alcatrão saliente, fez saltar a bicicleta do José. Vi as coisas acontecerem à minha frente muito depressa, como num filme: o José praticamente voou da bicicleta e foi cair no meio da estrada. Cada vez mais perto, aproximava-se um enorme camião em grande velocidade; dei um grito e contornei o corpo do José caído na estrada pela esquerda. Ao ver as luzes da minha bicicleta e o ciclista no chão, o camionista travou e foi por um triz que não aconteceu o pior. Fiquei em estado de choque.  O José levantou-se espantosamente, sem um único arranhão. Examinou a bicicleta e aconteceu o que ele temia: o quadro em carbono sofrera uma fratura no top tube.

Após uns instantes, o José decidiu arrancar sem dizer uma palavra e atrás seguimos eu e o Nuno em silêncio, mortificados. 

Foi desta forma estranha que concluímos o brevet, com um episódio nos últimos quilómetros que me fez gelar o sangue.

Um brevet só acaba no fim. Não se deve festejar antes de entregar a prova de passagem no último posto de controlo.

O melhor de tudo: terminamos e voltamos para casa.
Das duas vezes em que participei, consegui concluir, e até ao momento é dos brevets que me dá mais prazer. Uma frase que exprime a razão de gostar tanto desta distância:  "I like the 400K because it packs almost every aspect of randonneuring into a one day package. A 400K invevitably includes several hours of night riding, numerous controls and the need to manage your food and liquids. Additionally, the time limits are generous enough that there is plenty of time for conversations and longish meal breaks with other riders. ", Dan Diehn.

Agradecimentos aos voluntários que fazem "andar" o brevet, alguns dos quais não cheguei a ver. Aos companheiros do caminho: obrigada ao José, que é um santo e me aturou todo o dia (não é facil) e ao Nuno, com um espírito positivo tão contagiante e que nunca demonstrou sinais de cansaço apesar das rodas de btt não facilitarem muito.

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