Às vinte e duas e quinze de sábado, 25 de janeiro, eu estava na estação de comboios de Vila Franca de Xira à espera do comboio das vinte e três e quatro. A estação àquela hora tem um aspeto sinistro e desolado. Estava completamente sozinha, ou quase. No elevador da estação um rapaz com aspeto inquietante entretia-se a subir e a descer. Vinte minutos depois, apareceram duas pessoas: um rapaz muito louro com óculos de massa, lábios preenchidos com botox e uma rapariga africana. Falavam do mesmo que eu pensava. Que a estação era muito perigosa e isolada nos fins de semana à noite. Juntei-me a eles e ficaram contentes por sermos um trio. Iam para Lisboa para o Bairro Alto, ter com amigos. O rapaz tinha a mala cheia de pinceis de maquilhagem, base para disfarçar as borbulhas e tinha um tique: estava sempre a espalhar creme nas mãos, muito secas, explicou ele. A rapariga ia ter com amigos para uma festa de anos. Eu, disse que só queria chegar a casa, pois tinha passado o dia a pedalar cerca de 200 e tal quilometros. O cigarro, quase caía dos lábios do rapaz louro e os dois ficaram interessados em saber por onde tinha andado neste sábado. Afinal, estava frio, vento, e a única forma de passarmos melhor o tempo era a conversar. Os três, eu e eles estavamos aliviados por termos companhia de viagem até Lisboa. Eles tinham medo de estar sozinhos numa carruagem quase deserta, num sábado à noite. Uma vez fui assaltado, confidenciou o rapaz louro, enquanto eu apreciava invejosa as suas lindas sombracelhas cuidadosamente arranjadas. É curioso como por vezes é tão facil conversar com pessoas com um estilo de vida que está a anos luz da nossa. Foi a segunda vez neste sábado, que me juntei a um grupo por sentir que juntos, seríamos mais fortes.
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| Posto de Controlo 1 - Saída de Vila Franca de Xira |
Éramos cinco. Pedalamos juntos, quase até aos últimos quilómetros do posto de controlo de chegada. Foi a primeira vez que consegui pedalar num grupo tão "numeroso". Normalmente, mais de três pessoas já é uma multidão para mim e o costume é ir sozinha. Desta vez, talvez por gostar da companhia, achei que seria melhor, para o bem e para o mal acompanhar aqueles quatros moços no L'Antique. Pedalar desta forma exige um compromisso invisível e conseguir mantê-lo até ao fim. Apesar de termos sido os últimos a chegar, devido a muitos fatores, pois todos esperavam uns pelos outros, nem dei pela passagem dos quilómetros. Tive muita sorte neste sábado.
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| Uma estrada secundária (quase) sem carros. |
Estava vento, chuviscava, mas a temperatura era bastante amena. Levei 4 bananas, 4 sandes de queijo e presunto, meio pacote de bolacha maria e bebida na camelbak. Como sempre, a parte mais difícil foi sair de casa às cinco da manhã, com apenas quatro horas de sono. Eu não tenho vergonha de dizer que durmo em média cerca de sete a oito horas de sono profundo. Estavam lá os habituées destes eventos, alguns estreantes e senti a falta dos animados amigos do Norte, que dão aos brevets um colorido especial.
Este brevet que passa por estradas antigas, em mau estado, tem uma navegação difícil e exige bastante concentração.
Senti-me sempre bem e sem queixas
especiais no corpo. A Nikita de regresso às viagens longas, foi a
heroína do dia. No ano passado, com a minha anterior bicicleta, o meu
corpo sofreu e berrou naquele empedrado, nas estradas esburacadas e
irregulares. Este ano a Nikita, prestou-me um grande serviço, mostrando
porque é tão especial. O empedrado parecia liso e ultrapassei os
obstáculos sem dores no corpo.
Depois da chuvinha molha-parvos,
veio o vento arreliante e senti muitas vezes que a bicicleta fugia. Foi o único senão. Com a
Charge isso é raro acontecer.
Não me posso queixar muito pois este passeio de 200 quilómetros foi mesmo isso, um passeio.
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| Ponte do Cação |
As paisagens do Ribatejo, que apesar de não serem as minhas favoritas, têm uma magia própria nestes dias. Depois de Santarém, a longa estrada para Vale Figueira, sempre chicoteados pelo vento, oferece a oportunidade de arrumar os pensamentos e meditar sobre o sentido da vida...e a vida nestes lugares tem um ritmo instalado há séculos. Deixamos para trás pessoas que olhavam-nos com curiosidade e correspondiam ao nosso cumprimento. Atenção ao próximo ponto de "navegação difícil", virar à direita para a Ponte do Cação. Perguntei a uma velhinha sentada num banco se sabia onde ficava a ponte. Disse-me que era surda e não ouvia bem.
Descobrimos a bela ponte. Respondemos a uma questão e registamos a hora de passagem. Continuamos a navegar.
Seguimos depois em busca da Quinta da Cardiga, que parou no tempo. Não resisti a tirar uma foto encostando a Nikita à porta do palacete.
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| Quinta da Cardiga |
Dei um salto. Do interior, vinha um barulho de correntes a arrastarem-se e um cão rosnou zangado com a invasão.
Uma dentada na sandes, antes de me meter numa estrada de terra batida. Quase quase mountain bike.
A bela Constância aguardava-nos, mas aqueles curtos quilómetros foram os
piores do dia, com o vento a redobrar de intensidade. Se eu soubesse
fotografar em andamento, tirava fotos às árvores para mostrar como os
ramos se curvavam.
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| Em Constância |
Tancos e a seguir... Constância. Fomos descobrir a Esplanada Pezinhos no Rio. Ali o vento não chega e o Sol convida-nos a lanchar.
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| Na Esplanada Pézinhos no Rio, Constância |
Ninguem se fez rogado, apesar do cuidado com as horas, porque tinhamos de chegar a tempo nos três postos de controlo seguintes.
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| Constância - Posto de Controlo |
A surpresa agradável, foi que dali para a frente o vento deixou de castigar-nos, durante muitos quilómetros.
Atravessamos mais uma ponte sobre o Tejo e passamos para a N118, mas só durante poucos quilómetros; depois da Chamusca e da Estátua do Trabalhador Agrícola, regressamos às estradas municipais e às estradas agrícolas por onde passam os tratores. No posto de controlo de Alpiarça, trinta e oito quilómetros depois de deixarmos Constância, esperava-nos o rosto simpático e sorridente da Filomena, que nos tirou fotos e carimbou os nossos cartões. Partimos e o trânsito muito intenso na estrada, num sábado à tarde, tornou-se enervante. Um carro passou quase a rasar a minha perna. Felizmente, regressamos à estrada esburacada onde só nos cruzamos com um trator e um carro com um atrelado para cavalos. A noite caiu e os buracos exigiam mil cuidados. Cinco farois de cinco randonneurs, tranformaram a noite em dia e permitiram uma travessia tranquila.
- Penúltimo posto de controlo e última questão: quem assina o graffiti debaixo da ponte é um tal "insider". Eram 18h26 e no horizonte desapareciam os últimos raios do Sol. Atravessamos a ponte Rainha D. Amélia para Porto de Muge e na Valada voltamos ao caminho por onde passamos de manhã. Nem um candeeiro. Escuro como bréu. Atenção! Estrada em mau estado! Ao fim de 190 quilómetros, a resistência começou a quebrar e algumas dores no rabo, nos joelhos, fome e a tentação de parar ameaçavam o nosso objetivo. Ali fazia um frio húmido e o vento voltou a soprar forte. Disse que parar naquele sítio era pedalar para trás e seria melhor aguentar mais um bocado até Azambuja, onde há uma estação de serviço com comida, bebida e casa de banho. Azambuja parece tão longe! Olha que não, disse eu. Já faltou mais.
Última paragem em Azambuja, aos duzentos quilómetros e continuamos para a etapa final, regressando à estrada da Central Elétrica. Um brevet com poucos carros, por estradas desertas é tão bom, mesmo que as estradas estejam em péssimo estado e os miolos debaixo casco fiquem todos remexidos com os solavancos.
Era noite quando chegamos, sorridentes e felizes.
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| Posto de Controlo 9 - Chegada a Vila Franca de Xira- sorriso de orelha a orelha. |
O meu agradecimento a todos os que organizaram e se voluntariaram para que este brevet acontecesse e pudessemos pedalar.
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| O registo do meu Garmin |
"Don't think about doing it.
Don't talk about doing it.
Do it."
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| A Full Positive Energy Bag helps a lot. |