“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 29 de dezembro de 2013

A útima volta do ano, de aço

Eu pensei que depois dos 400kms do Troia Sagres iria parar até ao final do ano. O ortopedista foi claro: tenho de descansar. Eu descansei, descansei, e como uma aluna aplicada segui o tratamento recomendado. 
Conhecem aqueles medos dos não pedalantes? São altamente contagiosos e eu fico muito vulnerável. À medida que os dias passam, sem tocar na bicicleta, assaltam-me receios esquisitos, como por exemplo o medo de já não saber pedalar, de não conseguir passar rotundas e cruzamentos,  de não conseguir tirar as mãos do guiador (um achievement que me deu tanto trabalho a aprimorar), medo de ser mordida ou derrubada por um cão, medo de sofrer bike jacking, para não falar do clássico medo de ser atropelada ou arrastada por um/a louco/a descontrolado/a. Claro que todos estes receios são insignificantes perto da mãe de todos os medos. Esse mesmo: eeeeek....de não voltar a caber dentro dos limites do meu bibs predileto.
Depois de tantos dias de pausa e, muitas calorias por gastar, saí para dar uma volta calma, nada de especial, vou só ali à serra e volto já, pensei.
Assim que a Charge pôs as rodas na rua, senti que o dia oferecia demasiadas possibilidades e seria uma pena desperdiça-las. O último domingo de 2013, não podia ser mais perfeito. Com temperaturas de dois dígitos, velocidade do vento de apenas um dígito, um Sol risonho e um trânsito automóvel ao meu gosto. 
The bike with a soul, that loves me back.
É frequente pedalar na zona antiga do Monte de Caparica, entrar no território do campus universitário e depois descer pela Trafaria, apreciando a última imagem do rio Tejo e o belo panorama da capital. Nos últimos trinta anos pouco mudou naquela zona. Passar por ali a pedalar é resgatar muitas memórias adormecidas.
Deixando a Trafaria para trás, a subida para o Lazarim oferece duas opções: seguir pelas ruas movimentadas do Botequim e da Charneca da Caparica, ou descer pela Sobreda da Caparica, por uma rua estreita com bermas em mau estado, onde os carros passam apressados. Normalmente, sigo pela Sobreda, como fiz hoje e só respiro fundo, quando chego a Corroios e entro, finalmente na N10 já com cerca de 16kms. A longa N10 vai levar-me até à serra da Arrábida.
Houve um tempo, em que me levantava de madrugada para sair às 7h00 da manhã de casa. Ultimamente, com receio das partidas que o frio prega, não vá uma gripe incapacitar-me durante uns dias, aguardo que a temperatura suba uns dígitos antes de sair de casa. Sinto uma pontinha de inveja dos bravos com quem me cruzo às 11h00 da manhã a regressarem de uma volta, enquanto eu estou ainda a começar.
A partir de Azeitão, a silhueta da serra torna-se mais nítida e apelativa. Não resisto ao chamamento e depois de passar a rotunda dos Picheleiros, subo ao Alto das Necessidades antes da grande descida que me vai levar em direção ao Vale da Rasca. Arrábida! Finalmente! Tantos dias à espera deste dia.
Mata do Solitário
Passam  poucos minutos das 12h00 e já somei 50kms.  Passo pela Figueirinha e depois por Galápos. O mar sempre azul e transparente daquele lugar é quase hipnótico. Agora não páro de subir. Já ando a subir há muito tempo. Começo a ver a densa Mata do Solitário. Preparo-me para atravessar a Mata, ou seja para dois quilómetros de subida. É um novo teste para a Charge. Ainda a subida vai no início e agigantam-se os fantasmas do fracasso total, ora por causa do joelho, ora por causa da bicicleta que não é adequada. "Ela vai aos mesmos sítios que as outras vão" - disse-me alguém. O Sol bate de frente e tenho de olhar para baixo, não vejo a subida, só vou apurando o ouvido para a aproximação de carros e dos motards domingueiros. Hoje, estou tão concentrada que não aprecio devidamente a Mata que é um retrato do que eram as florestas do mediterrâneo há muitos milhares de anos, e é um dos meus maiores deleites na serra.
Os últimos metros da subida são terríveis, mas a Charge não se intimida e, de repente...cheguei. Fantástico.


Viro à direita para uma nova subida, conhecida pela subida do Convento, com uma inclinação média de cerca de 9,6% distribuída por 1,3kms. A esta hora, passam poucos ciclistas mas estão lá outros "filhos" do vento. Pairam lá em cima, no seu voo em parapentes multi coloridos. Quando chego ao topo da subida do Convento oiço aplausos. É uma senhora que me cumprimenta. Retribuo. Hoje o dia está correr bem. Preparo-me para descer da serra e voltar para casa. São cinco quilómetros de descida e um panorama lindíssimo. Chego ao fim, com 72kms, quando me lembro que tinha prometido a mim própria tirar uma foto da Charge para meter no blogue e, voltei a subir. Agora é facil, já tenho os músculos aquecidos. Facil, o diabo! Há duas horas que ando a subir e só agora me apercebo de uma coisa: desde que saí de Almada, ainda não meti o pé no chão. Os dias frios são assim traiçoeiros, pois inibem a sensação de frio e de fome. A subida é feita com calma. Ao quilómetro 83 páro finalmente, tiro fotos à bicicleta, as selfies que estão na moda (mas não vou publicar, tal era o meu estado de deterioração) e aproveito para comer e beber. Tenho de substituir a grade de bidon, pois esta não me facilita beber água em andamento.
É tempo de voltar para casa. Digo adeus à serra, ao silêncio e regresso à confusão da N10.
Já somei 115kms quando atravesso a bonita Baía do Seixal, com demasiado movimento para o meu gosto. Sinto os sinais de alerta: irritação, impaciência. Estou exausta. Não trouxe comida suficiente. Só duas bananas e água num bidon. Afinal ia só dar uma voltinha curta, nada de especial. Sinto que está na hora de parar e, volto para casa de comboio.

Tem campaínha?

Um passeio domingueiro para cumprir o ritual do fim de ano:









terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Arnica - como prevenir ou evitar o agravamento das lesões

O nome arnica que significa pele de cordeiro, foi atribuído em função da aparência das folhas aveludadas de toque suave e macio. É uma planta de regiões temperadas que floresce  na América do Norte (ocidental). 



Ingredientes:
Extracto de Arnica
Óleo de Milfurada
Óleos essenciais de Hortelã-Pimenta
Alecrim
Alfazema
Gaultéria
Cânfora




Propriedades da Arnica:
Com propriedades analgésicas (alivia dores) e anti-inflamatórias combinadas, a arnica é amplamente usada para tratar contusões, distensões musculares, roturas de ligamentos, clarear e desfazer edemas e hematomas, entorses, cicatrização de ferimentos e furúnculos, reumatismos, traumatismos e outras lesões desportivas. Além de ser considerada estimulante e ter propriedades tónicas.

Nota: Até à data apliquei poucas vezes e pareceu-me uma boa escolha.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Passeio ao entardecer

Uns metem-se nos centros comerciais e em filas de trânsito intermináveis para as compras de Natal. Outros refugiam-se no silêncio da montanha, horas depois de terem passado todas as vedetas do ciclismo da região.


Afinal, tenho de refletir sobre a melhor solução para grades de bidon. O quadro é demasiado pequeno e pela experiência que tenho com a Nikita, comigo, só funcionam as grades de bidon com saída lateral.

Perdoa-me Nikita, mas a Charge é mesmo viciante. Não tinha percebido o significado smooth ride...até agora.



domingo, 15 de dezembro de 2013

Tróia-Sagres-Lagos-Troia

O destino!
Neste fim de semana andei a alimentar o monstro papa-quilómetros. Fui a Sagres e voltei. O meu ritmo foi bastante cauteloso, porque ainda guardo na memória as mazelas da tendinite pata de ganso que me obrigou a parar demasiado tempo. Queria testar as potencialidades da luz AXA gerada pelo S.O.Nabendynamo e até que ponto o atrito na roda iria prejudicar o andamento. Belíssima luz, pura, intensa, chegou para mim e para os meus companheiros eliminando as preocupações que tinha até agora com a duração das pilhas. Disseram-me que a Nikita brilhava como um camião.

A frase certa!


A Nikita aos coices, à espera para entrar em ação!

A atravessar Aljezur







Descoberta por um paparazzi.

Acrescentei uma segunda fita ao guiador (custou habituar-me ao laranja vivo, mas enfim), em vez de colocar gel e as minhas mãos agradeceram.



A parte boa é saber que somos tantos a pedalar em Portugal!

 Encontrei muita gente conhecida, outros que me conhecem não sei porquê e conheci pessoas interessantes. O melhor de tudo foi a bela companhia, o tempo divino para pedalar e finalmente fazer as pazes com o Troia-Sagres, ja que das outras vezes, não correu muito bem.

http://www.freebike.pt/v1.5/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=52
As paisagens algarvias da costa vicentina no seu melhor.
http://www.freebike.pt/v1.5/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=52
Cheguei. Cheguei tranquilamente, como nunca pensei ser possível chegar a Sagres há alguns anos atrás, debaixo de chuva, vento, sem luzes, gelada de frio e esfomeada. Este ano exibia um sorriso quase tão luminoso como o Sol.
A minha primeira foto de jeito na chegada a Sagres

O pior do Troia - Sagres: os carros de apoio. Engoli fumo dos automóveis, fizeram-me tangentes, tive de aturar uns pseudo-prós que gritavam "força", "já falta pouco", "você assim tão carregada, está a pensar chegar a Marrocos?" ou "nesse ritmo a que horas vai chegar a Sagres?" e, só suportei  porque sou um poço de paciência sem fundo.


No regresso a Tróia - Odeceixe a descer!
 O regresso correu bastante melhor que a ida, graças ao vento ameno, à temperatura agradável, à redução significativa do trânsito e por ter conhecido lugares por onde nunca tinha passado. Experimentei o prazer de pedalar junto à marina de Lagos numa manhã de domingo e de subir até Bensafrim que não conhecia. Fiquei verdadeiramente deslumbrada com a subida de Espinhaço do Cão.
237 kms no sábado: Troia-Sagres-Lagos
190 km no domingo: Lagos-Troia




Termino assim em grande as pedaladas de 2013, da forma mais ecológica possível. Reduzi os 15 000 kms de 2012 para 13 000kms  em 2013. Em vez de pedalar para encher a barriga do papa-quilómetros tentei alimentá-lo com quilómetros de qualidade...


 O caminho é o que importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar. (Louis L'Amour)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Os primeiros 100kms de aço

8 de dezembro 2013

Quando acordei esta manhã, fui à janela ver se o vento ainda soprava muito forte. Nem uma folha se movia. Perfeito- pensei e voltei para a cama. O relógio marcava 04h00.
Às 07h00 levantei-me e Sol que nesta altura do ano invade o quarto estava encoberto. Aborrecida fui à janela confirmar as minhas suspeitas. Caíra um nevoeiro cerrado. Oh céus! bradei, quando é que voltam os dias perfeitos. Mesmo assim, equipei-me rigorosamente para enfrentar as temperaturas baixíssimas deste Outono impiedoso. Os meus planos de começar a pedalar às 08h00 da manhã mudaram para as 10h00 e depois foram adiados para as 11h00. Eram 11h14, o Sol estava a reaparecer quando  comecei a pedalar em direção à Arrábida. A Nikita ficara em casa e levava comigo a Charge.
Que louca, pensava! subir a serra numa bicicleta de aço. Nem devo conseguir subir o Alto das Necessidades! Lá segui eu pela N10. Passei a subida de Negreiros, Brejos de Azeitão, Picheleiros e a Charge rolava, rolava, suavemente. Eu continuava desconfiada. Até onde é que este "ferrinho" consegue ir?
Surpresa! subi o Alto das Necessidades sem ouvir queixas do joelho. A nova cassete 11-32, é um descanso. A subida do Vale da Rasca pareceu-me quase plana.
Em sentido contrário passavam os ciclistas domingueiros vestidos de lycra colorida e montados em bicicletas ultra leves dignas de um Tour de France. Olhavam a minha Charge com guarda lamas, com estranheza. Ataquei a subida da serra pelo lado da Secil. Ouvi uma saudação numa língua estrangeira. Olhei e era um turista vestido com trajes casuais. Mais à frente passei por um randonneur meu conhecido de muitos brevets e novo cumprimento. Até ao fim da subida, tive a companhia de um ciclista que vinha a comentar: "ela (a bicicleta) está aguentar-se bem".
Lá em cima, o vento soprava ameno e o Sol brilhava intensamente.
Descida pelo Convento. Ai que frio! Nova descida vertiginosa até às praias. Quase a deixar a serra, ainda faltava testar a última subida, a tal que tem um segmento com 9% de inclinação. Sem grande sofrimento e, tranquilamente passei a subida dos Picheleiros. Quase a atingir os 60kms, lembrei-me que não comia nada desde as 10h00 da manhã e o relógio marcava 14h00. Parei para comer uma banana. O frio inibe a sensação de sede e, convém tomar os devidos cuidados para não ser demasiado tarde.
O trânsito de regresso a casa, típico aos domingos começava a intensificar-se. Eu só tinha uma preocupação: chegar a casa antes das 17h00, pois apenas levava luzes de presença e daí a pouco deixaria de ver o caminho.
Cheguei à Trafaria aos 100kms, quando ao meio da rampa, tive de abortar a subida. Uma matilha de cães abandonados de grande porte (e hoje vi imensos) ladrou para mim com hostilidade. Faltava pouco para o pôr do Sol e segui um caminho alternativo. Cheguei a casa aos 110 kms e mais de 1700metros de acumulado, obviamente satisfeita.
A Charge passara no teste com distinção; as dores no corpo eram insignificantes.
Pontos a corrigir: o guiador e o selim. Sinto falta do guiador da Velo Orange Gran Cru Rando e nada se compara a um selim Brooks.Também preciso trocar o porta bidons. Prende com tanta força que não  consigo tirar o bidon e voltar a coloca-lo em segurança, em andamento. Também gostaria de não ouvir o barulho do guarda-lamas traseiro. Penso que deve ser um defeito de fixação. Parece que levo umas latas de alumínio a chocalhar. Nem preciso de campainha.
E nesta semana, com as voltas diárias casa-trabalho-casa, a Charge já somou 258kms. É tão viciante pedalar nela. Apetece andar, andar.
Se a levo um dia para um brevet randonneur? quem sabe.
I'm falling in love again.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Luzes de dínamo


Esperemos que agora as noites se tornem menos densas, as estradas menos traiçoeiras e a minha bicicleta muito mais visível. Esperemos que nunca mais volte a  preocupar-me com pilhas descarregadas.

Dinamo SON-deluxe
Luz frontal AXA Luxx70


Que nenhum buraco, pedra, ramo, raíz, estrada de pedra, estrada de terra batida, estrada em obras, caminho sem saída, ou cão escondido atrás da moita, se esconda desta luz.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Steel is real

Agora ficou tudo baralhado.
A Nikita, não podia ser filha única, e convinha ter outra parceira de pedaladas mais modesta, para poupar os componentes da minha titânica. Perdi algumas horas de leitura e a aborrecer muita gente com emails e perguntas. Tinha a certeza que não queria voltar ao alumínio ou ao carbono. E o impensável foi encontrar o reino quase esquecido das bicicletas de aço
Descobrir os segredos do aço, uma tecnologia tão antiga que os humanos dominam desde a idade do ferro, a hierarquia das ligas aço, os grandes fabricantes, foi uma ocupação agradável nestes dias frios e escuros em que fiquei mais tempo em casa devido ao mau tempo e ao descanso forçado para sarar lesões após um ano intenso de longas pedaladas.
Às vezes piscava o olho às bicicletas de aço vintage, mas desconfio que não me habituaria.

Saber que posso pedalar confortavelmente numa bicicleta que absorve as vibrações do terreno, que pode ser restaurada é um argumento forte. É outra religião.
Supostamente da Inglaterra (ou quem sabe de Taiwan?) chegou a minha pequena Charge esbelta, linda mas pouco leve. A minha primeira cromoly.
Fiz uma viagem ao "novo clássico" e deixei-me seduzir por esta joia. Uma bicicleta simples, longe do circo das bicicletas da moda, de grande performance, mas com uma personalidade especial.
Esta bicicleta é das que têm alma.






Para fazer alguns "trabalhos de casa" enquanto a Nikita descansa.

domingo, 20 de outubro de 2013

Tejo-Sorraia-Tejo, BRM 200kms - 19 outubro 2013

As previsões eram de aguaceiros fortes, trovoada e rajadas de vento. Uma meteorologia bastante instável num perfeito dia de Outono.
Equipei a Nikita para o efeito, com mudas de roupa, um impermeável, abastecimento alimentar e material que uma pessoa prevenida deve levar, para não ter de aborrecer ninguém, num passeio em autonomia.
Vários fatores tinham-me feito hesitar em participar neste brevet, como a doença do meu pai e a tentação de experimentar o Skyroad Granfondo na Lousã. Mas o meu pai melhorou e ganhou alguma autonomia, passei a achar que o Granfondo não era a minha praia, não por causa da dureza, pois considero-me razoavelmente preparada, mas por causa da logística, deslocamento, alojamento, e sobretudo pelo mediatismo do evento. Sinceramente, fujo de passeios com milhares de participantes, que parecem passeios, mas que acabam por ser uma competição. Resolvi apostar no brevet randonneur pelo qual tenho um certo carinho, pois foi o meu primeiro, queria revisitar aquelas estradas e aferir a minha evolução.
Na noite anterior desabou um violento temporal, com direito a vento e trovoada que me fizeram estremecer de inquietação. Adormeci à 1h00 da manhã e levantei-me às 3h30. Lá fora, a chuvada forte deixara a estrada molhada, bastante escorregadia, uma humidade pesada e as folhas das árvores que tinham sido chicoteadas pelo vento, estavam quietas. O vento passara.
Menos mal, pensei esperançosa. Pode ser que o tempo se aguente assim durante umas horas.
Confesso que a coisa mais difícil deste dia, foi sair de casa às 5h30  para apanhar o comboio.

Em Vila Franca de Xira, à saída do comboio, encontrei o Jose Pedro Mota, em iniciação aos brevets randonneurs com a sua lindíssima bicicleta Surly, equipada a rigor.
Estava bastante quente e por aqui o vento, já passara há muitas horas. Com o entusiasmo do costume, depois de confraternizar com os outros randonneurs, parti. Que tempo fantástico! Ainda bem que a Meteorologia se enganara nas previsões.
As primeiras luzes da manhã cegavam-me a ponto de ter algum receio de bater na roda dos randonneurs que pedalavam à minha frente. Felizmente, estes mantinham as suas Cateye Rapid 5 ligadas.
Durante muitos quilómetros, tive a companhia do José Mota e mais alguns participantes. Por vezes trocava algumas palavras com este e aquele, por vezes passavam-se vários quilómetros sem dizer uma palavra.
É curioso que sempre achei uma coisa enfadonha pedalar em retas intermináveis e, neste brevet os quilómetros passaram ligeiros, desfrutando do caminho sem pensar muito no destino.
Atravessei o empedrado da Azervadinha sem dramas em direção ao Couço, a caminho de Mora. Até ao Couço a média foi de cerca de 25km/h.
Em Mora, reencontramos vários randonneurs que carimbavam o cartão e se abasteciam. Alguns deles só voltamos a ver à chegada em Vila Franca de Xira.
Os cerca de quarenta quilómetros do troço da linda estrada N2 que separam Mora de Montemor o Novo convidam-nos a pedalar com prazer e sem muitas pressas, pois o sobe e desce não o permite. As novas rodas da minha Nikita adoraram.
Cheguei ao Café Pão Nosso de Cada Dia, o posto de controlo três, em Montemor o Novo, ao quilómetro 129. O posto de controlo numero dois tinha sido no Café Afonso em Mora. Ainda tinha umas sandes de queijo e um pacote de chá verde Gorreana que trouxera, para um belo lanche à mesa da esplanada. A partir daí perdi o contato com os meus companheiros. Habituada a fazer os brevets sozinha, continuei o caminho, com uma breve paragem em Vendas Novas para encher os bidons e comer um queque.
No regresso, a poucos quilómetros da rotunda do Infantado, uma pequena nuvem cinzenta brindou-me com uma pequena chuvada. Acendi as luzes da bicicleta às 18h30, antes de entrar na reta do Cabo e pouco tempo depois enfrentava a rampa das Piscinas de Vila Franca de Xira, dando por concluída a minha última participação deste ano. É tão bom chegar ao fim de um brevet a pensar: "isto para mim é um pequeno almoço". Nem sempre é assim...tem dias.
Moral da história: em 2013 concluí o Tejo-Sorraia-Tejo com a mesma média que em 2012, de 21,4km/h (não espero grandes milagres pois nem sei como se treina para pedalar a 30km/h, limito-me a pedalar enquanto sentir força nas pernas, e nesta idade, nem vale a pena meter-me em campeonatos de velocidade; o único verdadeiro milagre é estar aqui entre tantos "craques", tendo aprendido a pedalar há quatro anos) A diferença é que desta vez não sofri, não tive medo, ia melhor equipada para qualquer imprevisto e pedalar 214 kms foi um belo passeio.
Ups, eu falei em médias?...tenho de ter cuidado senão fico parecida com aqueles "randonneurs" que no fim de um brevet a única história emocionante que têm para contar é aquela em que conseguiram uma média alucinante e chegaram entre os primeiros.
Em 2013, fui a todos os brevets randonneurs, tanto os organizados no sul como os da Via Veteris. Também foi um ano marcado pela tristeza irreparável de ter ficado a 80kms de ser Super Randonneur. Planeei tudo dentro do possível, com algum sacrifício pessoal em que notei algumas melhorias entre aquilo que era e aquilo que sou agora. Para muitos é ridículo, pois continuo a chegar em último, a pedalar "mal", mas eu sinto que estou diferente.
Há coisas que não teriam sido possíveis sem os conselhos dos randonneurs mais experimentados, pesquisa e muita aprendizagem. Estamos sempre a aprender.
Fazer um brevet, não tem de ser sinónimo de sofrimento, sei o que tenho de fazer para reduzir as hipóteses das coisas correrem menos bem, antecipar-me aos problemas, sei onde estou e para onde vou. A qualquer momento, mantenho sempre esta certeza: hei-de chegar lá!


SAW old Autumn in the misty morn
Stand shadowless like Silence, listening
To silence, for no lonely bird would sing
Into his hollow ear from woods forlorn,
Nor lowly hedge nor solitary thorn;--
Shaking his languid locks all dewy bright
With tangled gossamer that fell by night,
Pearling his coronet of golden corn. 
(Thomas Hood)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Caminhos de Peregrinação

30 de junho 2013

E pela terceira vez na minha vida de ciclista fui a Fatima a pedalar.
Na minha estreia, em 2011, aproveitei o passeio super bem organizado da Junta de Freguesia de Benfica. Tivemos escolta policial, uma mota com um fotógrafo que registava o evento ao pormenor, um autocarro e muitos meios de assistência em viagem. Paravamos de vinte em vinte quilómetros e tivemos direito a uma paragem em Santarém para um belo almoço. Depois disso, começamos a avistar a bela Serra de Aires e Candeeiros imponente, uma barreira a transpôr com subidas desafiantes. Possuía uma bicicleta de Btt, a minha experiência limitava-se aos passeios de ciclotirismo, nunca tinha subido uma montanha e ignorava totalmente a regularidade com que tinha de repôr liquidos e alimentar-me. Apesar do esforço, na subida do Covão do Coelho, aprendi pela primeira vez o significado de levar com o homem da marreta. E que marretada!
Voltei para o autocarro, sem perceber muito bem o que me tinha acontecido; um pacote de açúcar, uns goles de água e após uma pequena pausa, voltei a montar a bicicleta e continuar. A subida ao Vale do Alto é até hoje um dos meus objetivos não atingidos.

Subida a Fátima 2011
Foi um grande acontecimento, comentado até pelos parentes desde África à América. A Ângela tinha ido a Fátima de bicicleta!
Curiosamente, antes de aprender a pedalar, ir a Fátima nunca foi uma prioridade. Era um passeio de carro, sem grande novidade, no qual ia acompanhar familiares de passagem por Portugal. Não sentia com intensidade a espiritualidade daquele lugar e nem compreendia os sacrifícios dos fiéis.

Senti que alguma coisa tinha mudado, quando um dia em 2012, a minha Mãe convidou-me para ir com ela a Fátima. Nem pensar - respondi, só faz sentido ir a Fátima a pedalar - surpreendi-me a mim própria com esta resposta.

Em julho de 2012, depois de participar no Portugal na Vertical onde "morri" aos 389 quilómetros, por estar de férias resolvi ir até ao Vale do Alto. Estava extremamente cansada, com dores nos joelhos, mas parecia-me um "crime" desperdiçar um dia lindo de verão de barriga para o ar. Segui outro caminho. Parti de Vila Franca de Xira, seguindo pela Nacional 1 até Rio Maior. Queria chegar à Batalha e daí seguir até Fátima. O vento de norte, dificultava um bocado a viagem, mas continuei. Ao passar pelo Alto da Serra, vi dois bttistas que me cumprimentaram e ultrapassaram-me. Alguns quilometros mais adiante, voltei a vê-los e exclamaram: "A senhora anda bem!". Secretamente pensava: "Eu não pedalo nada! Eles é que estão a andar devagar". A partir daí seguimos os três juntos em amena cavaqueira. Eles voltavam de um passeio na serra e iam almoçar; adivinharam que eu ia para Fátima. "Não vá pela Batalha. Existe um caminho mais curto e com menos subidas por Porto de Mós. Tem duas subiditas, nada de especial e depois é sempre a descer depois de passar o Parque Eólico". Fui na conversa deles. Realmente encurtei alguns quilómetros ao percurso. Não sabia ainda que subidas mais curtas significam subidas mais íngremes. Ai, ai...vale a pena sofrer para pedalar naqueles caminhos recheados de beleza, admirar o reino do calcário e a mata de carvalhos e outras espécies vegetais que envolvem com um perfume agradável até os viajantes mais distraídos.
Quando cheguei ao Santuário e depositei as velinhas na pira, senti a urgência de voltar pois as horas voavam. O regresso foram cerca de sessenta quilómetros surpreendentemente rapidos até à estação de comboios de Santarém. Resumo da volta: 

Distância: 163,50 km
Tempo: 9:40:33
Veloc. Média: 16,9 km/h
Ganho de elevação:  2.096 m



30 de junho 2013
Decidi que a melhor altura de fazer esta viagem anual sozinha, até Fátima seria depois do Portugal na Vertical, pois ainda sentia o corpo e a mente condicionados para enfrentarem centenas de quilómetros de forma mais pragmática, o que não acontece normalmente. 
Em vez de pensar que vou pedalar 200kms, divido mentalmente o caminho em percursos mais pequenos. Por exemplo, de Vila Franca de Xira até Rio Maior, são 50kms e de Rio Maior até à Batalha são 40kms. Em Rio Maior, páro na cafetaria 24h, para abastecer-me. E na Batalha, outra paragem para uma sandes de presunto, um gelado e água fresquinha. É mais simples pensar em etapas curtas que sofrer por antecipação, ui! tenho de pedalar 90kms.
Esta viagem permitiu-me recuperar a paz que precisava. Depois da desilusão do Portugal na Vertical, precisava de pedalar nos mesmos caminhos, ou parte deles. Queria partir e chegar sem hora marcada, nem postos de controlo.
Estava insuportavelmente quente, hesitei vou não vou e acabei por ir. O trânsito não me assustou e quando passei por Montejunto senti novamente uma estranha atração como no ano passado. Hei-de lá voltar um dia destes, prometi a mim mesma.

Começava a arrepender-me de ter saído de casa tão tarde. Pelo andar da carruagem, só regresso ao cair da noite. Não tinha pressa, trazia luzes, colete refletor, água, comida, mas sentia-me menos aventureira depois de tantos sustos sofridos no fim de semana anterior.
Curiosamente, fiz uma viagem muito tranquila. De vez em quando o vento do norte, soprava de frente, fresco e ameno. Foi a minha salvação num dia tórrido.
Na Batalha, a empregada do café admirou-se quando disse que ia até Fatima. Murmurou: "Com a ajuda de Deus ha-de chegar, mas até lá é sempre a subir, com este calor. Coma bem para ter forças." Parti. Era sempre a subir, mas a estrada é tão bonita e com uma vista maravilhosa, que tive muitos motivos de distração. Sinceramente, pensei que fosse pior, mas achei a subida parecia com a da Secil até às Antenas na minha serra da Arrábida. E eu prefiro as subidas ao tédio das estradas longas e intermináveis.


Em Fatima, a paragem foi curta, pois não queria descer a serra já de noite. Ainda tirei as fotos da praxe com a ajuda de duas amigas brasileiras. "Nossa! você vem de Lisboa! E vai voltar a pedalar? Uma verdadeira peregrinação!"



 Enchi-me de coragem para a viagem de regresso. Sentia que o corpo precisava de descanso depois da pedalar 520kms seguidos na semana anterior. 
Agora é sempre a descer, pensei. Pelo menos era mais a descer que a subir. Acendi as luzes traseiras.
Entrei na N3 a caminho de Santarém. Os comboios regionais CP já não transportam bicicletas e teria de parar numa estação de onde partissem comboios urbanos.
 Decidi parar em Azambuja!

Ainda faltavam alguns quilómetros para chegar a Santarém. Por acaso, sem me aperceber disso, em vez de ir para Santarém Centro, entrei na Circular Urbana de Santarém, com mil cuidados, pois ali os carros circulam em grande velocidade. Houve um carro que abrandou dizendo que não podia andar ali. Estranhei pois não vi nenhum sinal de proibição de bicicletas.
Respirei de alívio ao voltar à N3 em direção ao Cartaxo. Em breve, passava no Vale de Santarém, onde uma pequena exposição de bicicletas à beira da estrada, mostrava umas bonitas Yé-Yé. Que pena estar com pressa.
Apanho sempre uns sustos no Cartaxo e neste domingo, passaram alguns carros com pessoal dos copos. Passaram, enfim! 
Cinco quilómetros para Azambuja! O Sol já tinha desaparecido, e deixado alguns vestígios alaranjados no horizonte. Pelos carros que se desviavam concluí que as luzes deixam-me bem visível.
190kms! Tinha chegado a Azambuja!
Ai! Não aguentava mais! Depois disso eu e a Nikita vamos descansar muitos dias.
Ha dias de muita sorte! Chegar à Estação e encontrar um comboio quase a partir. Chegar a Lisboa e apanhar um comboio para Almada e estar em casa em menos de um fósforo. 
O cansaço era tão grande, que depois do banho, adormeci profundamente sem jantar.
Muito feliz por ter concluído este objetivo.

A vaga de calor está a deixar-me de rastos....vou ter de parar por uns dias, para regenerar algumas fibras musculares, definir novos caminhos...
Frases para reter : "When you lose, don’t lose the lesson"; "...not getting what you want is sometimes a wonderful stroke of luck"; "...silence is sometimes the best answer".




segunda-feira, 24 de junho de 2013

600kms na Vertical: "À segunda fui mais longe...mas não foi desta!"

BRM 600K


Como será que se sentiriam as pessoas "normais" quando dois dias após pedalar 520 kms sem dormir, tivessem de "abandonar o barco" a 80 kms do fim?
Sinceramente, neste momento em que quero terminar este texto antes de mergulhar num sono profundo, a única coisa que me incomoda são  as picadas dos mosquitos. Tantas, que me sinto febril.




À segunda ou vai ou racha. Esta obsessão estava aqui a martelar, horas e horas, dias e noites, desde o ano passado.
Simplifico a descrição do meu brevet em duas partes: as coisas boas e as coisas más.

As Coisas Más:
 - O Acidente. Ao chegar ao Porto, seguindo na EN13, a caminho da Estrada da Circunvalação. Um dia tinha de acontecer um encontro errado. Acredito que o condutor apercebendo-se que eu não pedalo depressa pensou que me ultrapassava sem perigo, ao virar à direita no sentido Leça do Bailio, passando pela minha esquerda e acelerou. Manobra perigosa. Eu senti algo a bater-me raspando-me a anca e a mão esquerda; desiquilibrei-me. O pé esquerdo saltou do encaixe e o meu zigue zague provocou confusão no trânsito. Abanei mas não caí, mal refeita do susto que me acompanhou até ao fim do brevet. Penso que pelo ruído caraterístico, o carro terá ficado riscado.

- O "monstro do sono", tanto sono, sobretudo a partir dos duzentos quilómetros, foi-se agigantando a cada hora dominando-me quando me apanhava desprevenida; desviava-me para a rua arriscando uma valente cacetada dos veículos. Resistia, resistia quase sem grande esperança. O sono estava a tomar conta de mim. Tinha lapsos, a sucederem-se com mais frequência.

- O telemóvel. Debatia-me com o perigo de ficar sem contato nas zonas mais isoladas e devidamente aconselhada, esqueci o smartphone em casa e comprei o telemóvel mais básico da loja, daqueles cuja bateria dura vários dios. Era tao básico que nem dei importância ao manual de instruções. Por isso, foram várias as chamadas perdidas pois não sabia qual era a tecla de "atender". Quando tentei enviar mensagem, descobri que tinha de mudar as configurações e parar não era uma boa ideia. Perder certas "competências" pode ser sintoma de cansaço. Tenham cuidado.

- Solidão. Nunca tive problemas em pedalar sozinha; pode-se dizer que aprecio a minha companhia. Acho que este brevet é para se fazer acompanhado por razões de segurança. Passamos por zonas pouco povoadas, de mata, onde temos de pedalar durante longos quilómetros. Nem uma casinha, nem uma paragem de autocarro à berma da estrada para descansar. 

- O Silêncio. Pesado, denso, inquietante, apenas quebrado pelo eco do grito dos animais em certas alturas.

- Uma lanterna de 1800 lumens que só esteve acesa durante cinco quilómetros é para deixar triste, pois sessenta euros é dinheiro bom. Safei-me com a luz de 1600 lumens que dia após dia está tão fraca que desconfio que só tem cem lúmens neste momento. Também levava a Cateye a pilhas, mas é um último recurso para não ficar às cegas.




- Os cães a correrem atrás de mim em Sines. Dei um grito tão alto que revelou aos moços que vinham de uma discoteca que o ciclista afinal era uma "ela". Nunca mais tive sossego. Se calhar já estava sob efeito da embriaguês provocada pelo sono e começava a imaginar. Pelo sim pelo não, como eles tinham carro, muita vontade de se divertirem, não arrisquei em seguir até ao Cercal, apanhar mais quilómetros de mata densa e solitária, mais cães vadios e encontros perigosos. Também ouvi uns comentários inquietantes sobre a bicicleta, uma grande máquina, diziam.

- Os malditos mosquitos.

- A Frustração. Bem sei que devia combater esta sensação. Mas não posso evitar. Dei tanto de mim, o que tinha e o que não tinha e não foi o suficiente. Não consigo conformar-me. 


As Coisas Boas: 

- Os Voluntários deste brevet. Não  vou referir nenhum nome em especial, porque guardo de todos as melhores recordações. Muito obrigada, foram fantásticos. (Obrigada pelas fotos, Paulo Gaspar)



- O meu GPS - este tijolinho dakota20, continua a marcar pontos. Depois de muitas brigas e desencontros, acabamos por nos entender. Faço os percursos, guardo-os no aparelho e só tenho de confiar. Nunca me enganei. Que alegria. Adoro-te GPS! (ainda falta perceber bem como meter os waypoints, mas se treinar um bocado nas férias do Verão e chatear algumas pessoas, chego lá).

- O guiador Velo Orange, chegou numa altura providencial. É tão bom pedalar centenas de quilómetros sem dores nas costas. O céu existe mesmo.

- O meu querido Brooks. Quem diria! A primeira vez que olhei para ele, pensei que tinha deitado dinheiro pela janela. Batia nele e parecia uma porta de madeira. Estava aterrorizada. Arrisquei, sujeitando-me a todo o tipo de dores no "legendary break in period" dos Brooks. Uma manhã, 600 kms depois, quando passava creme no selim, sem grande esperança, notei que a pele tinha cedido em alguns pontos. Aleluia. Ainda não está a cem por cento e fiquei agradavelmente surpreendida pois quando mais tempo passava em cima dele, mais conforto sentia. My dear Brooks, I love you.

- As dores nos pés. Passaram. As palmilhas e resultado: um grande alívio. Elas andam ali, basta um descuido que voltam. Poder correr e saltar depois de dois dias a pedalar, quando antes ficava uma semana sem mexer uma palha, é um sonho.

- A minha Nikita, única e incomparável. O nome que dou carinhosamente à minha titânica. Apesar da frustração de ver escapar o Portugal na Vertical por 80 kms, não me esqueço que as maiores conquistas deste ano têm sido aos comandos da minha "randonneuse". Aliás, ter ido mais longe que no ano passado é uma nota desta escolha feliz.

 - A companhia de um randonneur do norte (que na sua Litespeed já pedalara conosco no brm 200 do Alto Minho), desde Neiva até muito perto do Porto.

- O numeroso grupo de randonneurs do Porto que reencontrei em Matosinhos. Que pessoal tão fixe. É sempre bom ver-vos. Obrigada pelo apoio e pelos petiscos deste posto de controlo. Obrigada ao Jacinto Oliveira que me guiou até quase à Ponte D. Luís.

- O vento do norte pelas costas. Ó pá, obrigada pelo empurrão.

- Hotel Sinerama em Sines. Andei às voltas por Sines à procura de um lugar para ficar. Um grupo de jovens ruidosos, que saía de uma discoteca aconselhou-me e eu tratei de afastar-me deles o mais depressa possível. Eu disse ao rececionista do turno da noite, que não ia pagar setenta e dois euros para lá ficar duas horas até o Sol nascer. Compreensivo, indicou-me uma parede para encostar a Nikita e uma cadeira para descansar numa sala de estar, onde adormeci durante duas horas à espera do autocarro de volta para casa. Antes disso, quis saber pormenores sobre os Randonneurs Portugal.

- My big moment. Superei tanta coisa. Quando cheguei a Lisboa, com 400 kms, sentia-me muito bem. Atravessei o Tejo, preocupada: ja era tarde e tinha de pedalar depressa para cobrir os quarenta quilómetros até Setúbal antes de encerrar este Posto de Controlo. Senti alguma dificuldade em chegar ao Cais de Sodré e, desesperada estava a ver os barcos que ia perdendo. 
Cacilhas! Eram cinco horas e meia. Novamente o trânsito de domingo intenso e difícil. Na minha vida de ciclista só pedalei no troço complicado entre a Cova da Piedade e Corroios, aí umas três vezes e procuro sempre caminhos alternativos. Respirei fundo, aproveitando o sinal verde e avancei. Tinha de cumprir a qualquer custo o percurso. Consegui atravessar e só por isso senti um gozo muito especial, pois nem uma vez tive de desmontar da bicicleta. Uma sorte inacreditável Semáforos verdes e sem autocarros a entupir a estrada, despachei-me como nunca imaginei ser capaz! (hum...podias apanhar o comboio, poupavas bastante tempo, segredou-me o diabo ao ouvido. E para enganar a quem?, perguntei. A piada dos brevets é não serem provas. Só há duas hipóteses: conseguir e não conseguir. Quem faz batota sabe sempre que não consegue ao contrário de quem aceita as regras, que vai tentando uma, duas, três, as vezes que forem precisas, pois sabe que ha-de conseguir no dia certo).

- Ah, claro! a Super Lua Cheia. Vi-a na Comporta, uma bola enorme, cor de salmão.

- Os gelados. Há lá coisa melhor que saborear um gelado numa esplanada, contemplando a vida?

- Chegar a casa. Fazer um relatório de danos e concluir que houve mais ganhos que perdas.

- Por que será que me meto nestas coisas? Para mim, o desafio em si, é uma motivação extra. Nunca conto com ajuda, tenho de pensar sempre numa solução, para tudo. Naqueles momentos difíceis, dou por mim a pensar que até podia estar noutro lugar aparentemente mais seguro a fazer outra coisa menos arriscada. Poder, até podia, mas não era a mesma coisa.

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Nota: a médica (uma miúda nova) que me atendeu nas urgências do Centro de Saúde, ficou alarmada com o inchaço anormal provocado por picadelas dos mosquitos, nas pernas, braços, cara, mãos. Perguntou-me onde arranjara. Devia ser a sua única paciente da tarde, no Centro de Saúde quase deserto. Contei-lhe as minhas aventuras do fim de semana e ela disse que conhecia bem a zona e, mesmo de mota, jurou que nunca mais passava ali sozinha de noite. Uns dias com pomadas e comprimidos, pode ser que as feridas sarem e as febres passem. Malditos mosquitos!

domingo, 26 de maio de 2013

A primeira vez que pedalei 400kms

http://www.RandonneursPortugal.pt

O rececionista da Pensão Flora em Vila Franca de Xira, cabeceava de sono, quando toquei a campanhia já muito depois das duas horas da manhã. "Sim, tinham quarto para mim, mas a bicicleta dormia na garagem. Não se preocupe menina, ninguem a rouba, nem mexe nela; pode acontecer apetecer-me dar uma volta nela durante a noite, gracejou. Sim, sim fique descansada, há água quente para tomar banho, tem é de deixar correr um bocado." Desta forma, terminava um dia longo, duríssimo e desafiante. 
Doía-me o corpo todo, custava-me caminhar, sentar e até perceber que alguns minutos atrás conseguira concluir com sucesso o Alqueva400.
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No último instante, quase a desesperar, o Jorge respondeu ao meu pedido de boleia no randonneurs googlegroups.
 Quando me veio buscar, faltava muito pouco para as vinte e três horas. Apreensiva, perguntei: "Achas que estamos em Vila Franca de Xira, antes da meia-noite?". O  Jorge estava bastante seguro e senti-me mais tranquila. Na viagem rápida, aproveitei para saber como decorrera a sua grande aventura de bicicleta até à Polónia. Só ele, uma bicicleta e o atrelado. Nem me esforcei muito para disfarçar a inveja. 
Eu e a minha bicicleta já estavamos equipadas, sem esquecer os mínimos detalhes. A Nikita ia pesadíssima, carregada de tralha. Mas o Jorge, além de ainda não estar equipado, tinha a bicicleta mais leve que se pode levar para um brevet. Nem bomba levo, revelou, deixando-me boquiaberta.

Complexo das Piscinas Municipais de Vila Franca de Xira. Cheguei tão tarde, que nem tive oportunidade de saudar todos os randonneurs ou de posar com eles para a foto de grupo. Só sobrou tempo para enganar o sono com um café, pois à meia-noite, as pessoas normais não saem para pedalar e eu costumo cair nos braços de Morfeu.

O vento soprava forte, quando arranquei. Calma, que vai bater de costas - pensei. Já me tinha mentalizado que ia pedalar sozinha toda a noite e muito possívelmente na totalidade dos quatrocentos quilómetros. Não era nada de especial pois já me habituei e gosto muito da tranquilidade noturna. Mesmo assim, rezei que todos os cães ferozes estivessem bem acorrentados. Um a um os randonneurs, que àquelas horas pareciam aves noturnas, como de costume, ultrapassaram-me e desapareceram engolidos pela noite.  O Rui Rodrigues, a minha companhia, nos primeiros cinquenta quilómetros até Pegões, em breve desaparecia com eles. A certa altura, passou por mim o Jorge que me dera boleia, num ritmo impróprio para cardíacos. A luz vermelha da sua bicicleta acabou por sumir numa curva.

A partir daí, viajamos, apenas eu e a Nikita, sempre  observadas por uma fabulosa Lua Cheia. Uma noite de sonho! O luar prateado tornou a viagem mais suave e a noite deixou de ser um bicho papão. A coincidência desta fase da Lua, facilitou-me bastante a vida, pois poupei a bateria da minha luz mais forte. Só usei uma Cateye à frente e experimentei outra luz traseira Cateye, bastante boa por sinal, gentilmente emprestada pelo Pedro Alves. Todos os brevets noturnos deveriam ser na Lua Cheia.

Sentia-me bastante insegura das minhas capacidades físicas. Não tinha a certeza daquilo de que seria capaz, ao contrário dos outros brevets que já fiz este ano, tanto os de duzentos como os de trezentos quilómetros, em que à partida sabia que eram favas contadas. Pedalar quatrocentos quilómetros é viajar para mais longe, testar o corpo, ir além daquilo que já tinha feito. Medo. Muito medo. Terei pernas? o coração aguenta? e as costas? vou arruinar os joelhos? Se não tentar nunca saberei. 
Ainda ponderei desistir de participar neste brevet, porque na última semana, uma fascite plantar muitíssimo dolorosa, a ponto de quase gritar quando caminhava, fez-me ir ao médico de urgência. Foi uma corrida aos antiinflamatórios; o ortopedista fez-me um par de palmilhas supinadoras que me devolveram a esperança de ainda conseguir ir ao Alqueva400.

Os quilómetros voavam com as horas. À noite, o tempo passa mais depressa e as subidas moem menos. 

Aos oitenta e cinco quilómetros atravessei Montemor o Novo, completamente deserta. Rara é a vez que passo por lá sem me cruzar com uma patrulha policial. Lá estavam eles, parados num cruzamento, controlando e observando-me com curiosidade.
A passagem por Évora não trouxe nada de emocionante, pois circulei pela zona das indústrias. 
Por vezes pensava nos outros. Onde andarão eles neste momento? já terão passado o Alqueva?


Ao romper da alvorada, ouvi cantar os galos  e estava a chegar a Reguengos de Monsaraz. Cento e cinquenta quilómetros sem parar e doida por encontrar uma casa de banho. Com os homens qualquer moita serve, não é justo. Estava tudo fechado e aqueles lugares são mesmo desertos. Tive de me conformar em pedalar mais um bocado até Mourão, o segundo posto de controlo ao quilómetro cento e setenta e cinco, para encontrar um imenso alívio. 

Os outros randonneurs já passaram há muito tempo, comentou a funcionaria do posto da Galp que me carimbou o cartão. 
Devagar se vai ao longe, respondi, enquanto comprava umas pilhas para o GPS, pois as minhas tinham descarregado.
O caminho para Moura, foi um delírio para os olhos e para a alma. O Guadiana, a Albufeira do Alqueva e todas as coisas belas da Natureza a que tenho direito. 

A Nikita no Alqueva.

Depois de passar o Alqueva, um pouco antes de chegar a Póvoa de São Miguel, estava eu a cantar em altos berros uma das músicas do meu repertório, quando senti uma presença humana atrás de mim. Era um ciclista alentejano equipado a rigor, nos seus treinos de sábado. "Vi quando passaram por mim em Évora um pouco antes das seis horas da manhã! É alguma prova? qual é o vosso site na net? qualquer um pode participar?" Depois disso despediu-se e desapareceu rapido, como uma mota; só voltei a vê-lo mais tarde em Moura.
Sabendo o que sei agora, ainda estava muito fresca quando encontrei a massacrante subida da Póvoa de São Miguel, toda em empedrado. Tive a companhia de um cão que rosnou mas não me impressionou. 


Quase a chegar a Moura, cruzei-me com dois randonneurs que me saudaram de longe. 
Já conhecia a subida de Moura e por isso, pedalei com calma até ao posto de controlo, onde reencontrei a Filomena  e o Apolinário que se preparava para partir. Com duzentos e nove quilómetros, depois de uma noite a pedalar sozinha, e sem dormir, é difícil fazer a transição para o mundo real, quando encontramos outros seres humanos.  A Filomena, bastante experiente, deu-me a entender que eu mantinha um bom ar, sem sinal de desgaste.

Uma vez vi numa foto de randonneurs americanos, a imagem de batatas doces assadas arrumadas numa mala Carradice. Quis experimentar e realmente resulta. Calorias muito saudáveis. Convém não assar muito para não ficarem desfeitas na mala. 
As minhas batatas doces, embrulhadas em papel de alumínio, tinham-se convertido em puré de batata há muitas horas; aliviei a carga da mochila e a fome.

Apesar do ligeiro desgaste tinha decidido que só parava para descansar ou dormir em Viana do Alentejo e a Filomena apoiou a ideia. Parti. Era meio dia.
Estava eu a pedalar nas terras do Alqueva, quando voltei a ver pela última vez, a Filomena que passou por mim de carro; ela  registou o momento numa foto. Depois disso fui sempre sozinha. O calor apertava e fazia um enorme esforço  para conter a sonolência que se apoderava de mim. Por vezes tinha de desviar o olhar, quando via a sombra convidativa de uma árvore. Apetecia-me desmontar e deitar-me. Resisti à tentação.
Entre Moura e Viana do Alentejo, a estrada é muito bonita e sem trânsito. A dureza do sobe e desce é um teste às nossas forças. Antes de chegar a Portel a subida parecia não ter fim. 


Os quilómetros no Alentejo são tão lentos. Cada quilómetro que passa é um quilómetro a menos, pensava eu no sentido positivo.
Em Viana do Alentejo, lá estava o bem disposto Paulo Leal como voluntário deste posto de controlo. "És a penúltima", informou-me. "Ainda falta o Apolinário". "Não pode ser, disse eu. Ele partiu antes de mim. Onde estará?"; "Se calhar parou em algum sítio", respondeu o Paulo.
Depois de carimbar o cartão e antes de decidir o que comer, adormeci profundamente no carro do Paulo. Acorda-me às quatro e meia, pedira. Quando abri os olhos ouvi a voz do Apolinário. Voltei a sentir-me bem e recuperada do intenso escaldão que sofrera.
Já tinhamos pedalado duzentos e setenta e tal quilómetros e faltavam cerca de cento e trinta. A partir daqui, tive sempre a companhia do Apolinário
Continuava com imensas dúvidas se seria capaz de fazer este brevet. Acreditava que ia rebentar a qualquer instante, pois as dores nos pés podiam intensificar-se com o esforço.
Que raio de ideia a minha a de estrear uns sapatos novos no dia de um brevet. Nestes eventos só se levam coisas testadas. O pé esquerdo tinha uma grande bolha e os sapatos que me pareceram leves e macios na loja, arranhavam a pele. Aproveitei todas as paragens para os descalçar. Punha palmilha, retirava palmilha.

Adorei Alcáçovas! Por causa da longa descida, fiquei a gostar ainda mais!



Chegamos a um lugar muito bonito chamado Santiago do Escoural, do mais alentejano que se pode querer. O Apolinário sugeriu que parassemos num café e eu concordei. Mandamos vir bifanas e coca-cola. 
À porta do café, numa esquina da rua principal da terra, um grupo de compadres, rodeou as nossas bicicletas, mirando-as com simpatia e sabedoria. Gente que gosta de bicicletas.

Estas são boas, comentavam. Vão lá comer as vossas bifanas que nós ficamos a vigiar as bicicletas. Aqui ninguém rouba nada. Tiravam medidas e discutiam o preço das nossas máquinas. Eu abanava a cabeça, sorrindo! Que exagero! Não custa metade disso.
Depois interessaram-se por nós e perguntaram: vão em direção a Montemor o Novo, não é? ainda faltam treze quilómetros. Há uma grande subida da serra, de três quilómetros, inclinada, mas faz-se bem. Depois é a descer para Montemor.
A paragem em Escoural fez milagres. Estava a sentir-me bastante bem. 


Quando chegamos a Montemor o Novo comecei a acreditar mais que havia muitas chances de conseguir completar o percurso no tempo previsto. Acho que até fiquei  demasiado confiante. Tanto que se até aí tinha vindo a poupar-me, a partir de Montemor o Novo, comecei a esticar-me no ritmo. Queria chegar a Pegões e depois disso era um salto até Vila Franca de Xira.
Já estava sem água e paramos pela última vez, em Vendas Novas numa casa de bifanas com um parque de estacionamento quase superlotado, para reabastecimento dos bidons e tambem para comer uma sopa. Um caldo verde inesquecível.
O vento noturno fresco, foi uma bênção divina. Os quilómetros enfadonhos da reta entre Pegões e Porto Alto, nunca foram tão faceis de devorar.
Não restavam dúvidas! Ia terminar o brevet!
Cada vez mais confiante o meu ritmo aumentou; ao fundo, via  Vila Franca de Xira. 
Entrei na Reta do Cabo em direção à ponte Marechal Carmona. Apesar do avançado das horas, o trânsito era muito intenso. Os carros e camiões passavam em grande velocidade.

Estremeci de alegria, ao passar a barreira dos quatrocentos quilómetros.
No instante em que completava  quatrocentos e quatro quilómetros e ao longe avistava as luzes da cidade, aproximando-me rapidamente da ponte,  aconteceu o inesperado... 
Primeiro senti que a bicicleta andava aos "esses" na estrada; fugia ao meu controlo e não conseguia mantê-la na berma para pedalar em segurança. Depois foi uma dor intensa no braço esquerdo e este adormeceu. Uma voz interior gritava "não desistas agora! já falta muito pouco...só cinco quilómetros!" e eu queria continuar a pedalar até à ponte e chegar a Vila Franca de Xira. Tomei uma decisão muito difícil: desmontei! Fiquei em lágrimas... 

Lição: nunca fazer coisas estúpidas, como pedalar quando se perde o controlo da bicicleta  e correr o risco de dar uma queda ou ser atropelada. Não é tão facil como parece, sobretudo quando o posto de controlo de chegada é já ali.
Mas sabendo o que sei hoje, foi o mais correto, pois trago na pele a recordação amarga do ano passado em que sofri uma queda bastante feia, porque não quis parar de pedalar quando os dois braços ficaram dormentes.

Conformada, fui a pé até à ponte, esperando que o braço melhorasse.
Não valia a pena enganar o corpo! Estava muito próximo do esgotamento total! Nem sopas, nem bifanas ou água faziam efeito. Teria de parar mais tarde ou mais cedo. Até a Nikita, de uma fidelidade titânica, estava cansada.

Apareceu o Apolinário que ao ver-me desmontada, pensou que havia problemas com a bicicleta  . 
O Apolinário foi um grande companheiro neste brevet e não me quis deixar caminhar sozinha na Reta do Cabo; acompanhou-me até à ponte. 
Perto das piscinas, recuperei alguma confiança; voltei a montar a bicicleta em segurança e pedalei até ao posto de controlo de chegada nas Piscinas de Vila Franca de Xira, chegando dentro do tempo, para alegria e alívio dos voluntários que me aguardavam. 
O meu quinto brevet de 2013, a minha estreia nos quatrocentos quilómetros e uma experiência altamente gratificante. 
Deixo aqui o meu agradecimento ao Apolinário como companheiro dos últimos quilómetros deste brevet e aos fantásticos voluntários que tornaram este brevet possível. 

Ser randonneur é uma longa aprendizagem; pode parecer estranho, mas não tem nada a ver com saber pedalar. Para mim é uma metáfora da vida.
Ser randonneur não é para me tornar famosa, ganhar o respeito, a admiração ou a inveja. Não é uma prova, logo não tenho necessidade de provar o que quer que seja. Não conquisto troféus, não bato records, nem apareço em fotografias épicas. Ser randonneur é estar sempre a aprender, procurar melhorar e estar preparada para qualquer desafio, em qualquer estrada, a qualquer hora, em quaisquer condições climatéricas. A vida também é isto.