“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Caminhos de Peregrinação

30 de junho 2013

E pela terceira vez na minha vida de ciclista fui a Fatima a pedalar.
Na minha estreia, em 2011, aproveitei o passeio super bem organizado da Junta de Freguesia de Benfica. Tivemos escolta policial, uma mota com um fotógrafo que registava o evento ao pormenor, um autocarro e muitos meios de assistência em viagem. Paravamos de vinte em vinte quilómetros e tivemos direito a uma paragem em Santarém para um belo almoço. Depois disso, começamos a avistar a bela Serra de Aires e Candeeiros imponente, uma barreira a transpôr com subidas desafiantes. Possuía uma bicicleta de Btt, a minha experiência limitava-se aos passeios de ciclotirismo, nunca tinha subido uma montanha e ignorava totalmente a regularidade com que tinha de repôr liquidos e alimentar-me. Apesar do esforço, na subida do Covão do Coelho, aprendi pela primeira vez o significado de levar com o homem da marreta. E que marretada!
Voltei para o autocarro, sem perceber muito bem o que me tinha acontecido; um pacote de açúcar, uns goles de água e após uma pequena pausa, voltei a montar a bicicleta e continuar. A subida ao Vale do Alto é até hoje um dos meus objetivos não atingidos.

Subida a Fátima 2011
Foi um grande acontecimento, comentado até pelos parentes desde África à América. A Ângela tinha ido a Fátima de bicicleta!
Curiosamente, antes de aprender a pedalar, ir a Fátima nunca foi uma prioridade. Era um passeio de carro, sem grande novidade, no qual ia acompanhar familiares de passagem por Portugal. Não sentia com intensidade a espiritualidade daquele lugar e nem compreendia os sacrifícios dos fiéis.

Senti que alguma coisa tinha mudado, quando um dia em 2012, a minha Mãe convidou-me para ir com ela a Fátima. Nem pensar - respondi, só faz sentido ir a Fátima a pedalar - surpreendi-me a mim própria com esta resposta.

Em julho de 2012, depois de participar no Portugal na Vertical onde "morri" aos 389 quilómetros, por estar de férias resolvi ir até ao Vale do Alto. Estava extremamente cansada, com dores nos joelhos, mas parecia-me um "crime" desperdiçar um dia lindo de verão de barriga para o ar. Segui outro caminho. Parti de Vila Franca de Xira, seguindo pela Nacional 1 até Rio Maior. Queria chegar à Batalha e daí seguir até Fátima. O vento de norte, dificultava um bocado a viagem, mas continuei. Ao passar pelo Alto da Serra, vi dois bttistas que me cumprimentaram e ultrapassaram-me. Alguns quilometros mais adiante, voltei a vê-los e exclamaram: "A senhora anda bem!". Secretamente pensava: "Eu não pedalo nada! Eles é que estão a andar devagar". A partir daí seguimos os três juntos em amena cavaqueira. Eles voltavam de um passeio na serra e iam almoçar; adivinharam que eu ia para Fátima. "Não vá pela Batalha. Existe um caminho mais curto e com menos subidas por Porto de Mós. Tem duas subiditas, nada de especial e depois é sempre a descer depois de passar o Parque Eólico". Fui na conversa deles. Realmente encurtei alguns quilómetros ao percurso. Não sabia ainda que subidas mais curtas significam subidas mais íngremes. Ai, ai...vale a pena sofrer para pedalar naqueles caminhos recheados de beleza, admirar o reino do calcário e a mata de carvalhos e outras espécies vegetais que envolvem com um perfume agradável até os viajantes mais distraídos.
Quando cheguei ao Santuário e depositei as velinhas na pira, senti a urgência de voltar pois as horas voavam. O regresso foram cerca de sessenta quilómetros surpreendentemente rapidos até à estação de comboios de Santarém. Resumo da volta: 

Distância: 163,50 km
Tempo: 9:40:33
Veloc. Média: 16,9 km/h
Ganho de elevação:  2.096 m



30 de junho 2013
Decidi que a melhor altura de fazer esta viagem anual sozinha, até Fátima seria depois do Portugal na Vertical, pois ainda sentia o corpo e a mente condicionados para enfrentarem centenas de quilómetros de forma mais pragmática, o que não acontece normalmente. 
Em vez de pensar que vou pedalar 200kms, divido mentalmente o caminho em percursos mais pequenos. Por exemplo, de Vila Franca de Xira até Rio Maior, são 50kms e de Rio Maior até à Batalha são 40kms. Em Rio Maior, páro na cafetaria 24h, para abastecer-me. E na Batalha, outra paragem para uma sandes de presunto, um gelado e água fresquinha. É mais simples pensar em etapas curtas que sofrer por antecipação, ui! tenho de pedalar 90kms.
Esta viagem permitiu-me recuperar a paz que precisava. Depois da desilusão do Portugal na Vertical, precisava de pedalar nos mesmos caminhos, ou parte deles. Queria partir e chegar sem hora marcada, nem postos de controlo.
Estava insuportavelmente quente, hesitei vou não vou e acabei por ir. O trânsito não me assustou e quando passei por Montejunto senti novamente uma estranha atração como no ano passado. Hei-de lá voltar um dia destes, prometi a mim mesma.

Começava a arrepender-me de ter saído de casa tão tarde. Pelo andar da carruagem, só regresso ao cair da noite. Não tinha pressa, trazia luzes, colete refletor, água, comida, mas sentia-me menos aventureira depois de tantos sustos sofridos no fim de semana anterior.
Curiosamente, fiz uma viagem muito tranquila. De vez em quando o vento do norte, soprava de frente, fresco e ameno. Foi a minha salvação num dia tórrido.
Na Batalha, a empregada do café admirou-se quando disse que ia até Fatima. Murmurou: "Com a ajuda de Deus ha-de chegar, mas até lá é sempre a subir, com este calor. Coma bem para ter forças." Parti. Era sempre a subir, mas a estrada é tão bonita e com uma vista maravilhosa, que tive muitos motivos de distração. Sinceramente, pensei que fosse pior, mas achei a subida parecia com a da Secil até às Antenas na minha serra da Arrábida. E eu prefiro as subidas ao tédio das estradas longas e intermináveis.


Em Fatima, a paragem foi curta, pois não queria descer a serra já de noite. Ainda tirei as fotos da praxe com a ajuda de duas amigas brasileiras. "Nossa! você vem de Lisboa! E vai voltar a pedalar? Uma verdadeira peregrinação!"



 Enchi-me de coragem para a viagem de regresso. Sentia que o corpo precisava de descanso depois da pedalar 520kms seguidos na semana anterior. 
Agora é sempre a descer, pensei. Pelo menos era mais a descer que a subir. Acendi as luzes traseiras.
Entrei na N3 a caminho de Santarém. Os comboios regionais CP já não transportam bicicletas e teria de parar numa estação de onde partissem comboios urbanos.
 Decidi parar em Azambuja!

Ainda faltavam alguns quilómetros para chegar a Santarém. Por acaso, sem me aperceber disso, em vez de ir para Santarém Centro, entrei na Circular Urbana de Santarém, com mil cuidados, pois ali os carros circulam em grande velocidade. Houve um carro que abrandou dizendo que não podia andar ali. Estranhei pois não vi nenhum sinal de proibição de bicicletas.
Respirei de alívio ao voltar à N3 em direção ao Cartaxo. Em breve, passava no Vale de Santarém, onde uma pequena exposição de bicicletas à beira da estrada, mostrava umas bonitas Yé-Yé. Que pena estar com pressa.
Apanho sempre uns sustos no Cartaxo e neste domingo, passaram alguns carros com pessoal dos copos. Passaram, enfim! 
Cinco quilómetros para Azambuja! O Sol já tinha desaparecido, e deixado alguns vestígios alaranjados no horizonte. Pelos carros que se desviavam concluí que as luzes deixam-me bem visível.
190kms! Tinha chegado a Azambuja!
Ai! Não aguentava mais! Depois disso eu e a Nikita vamos descansar muitos dias.
Ha dias de muita sorte! Chegar à Estação e encontrar um comboio quase a partir. Chegar a Lisboa e apanhar um comboio para Almada e estar em casa em menos de um fósforo. 
O cansaço era tão grande, que depois do banho, adormeci profundamente sem jantar.
Muito feliz por ter concluído este objetivo.

A vaga de calor está a deixar-me de rastos....vou ter de parar por uns dias, para regenerar algumas fibras musculares, definir novos caminhos...
Frases para reter : "When you lose, don’t lose the lesson"; "...not getting what you want is sometimes a wonderful stroke of luck"; "...silence is sometimes the best answer".