“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 26 de maio de 2013

A primeira vez que pedalei 400kms

http://www.RandonneursPortugal.pt

O rececionista da Pensão Flora em Vila Franca de Xira, cabeceava de sono, quando toquei a campanhia já muito depois das duas horas da manhã. "Sim, tinham quarto para mim, mas a bicicleta dormia na garagem. Não se preocupe menina, ninguem a rouba, nem mexe nela; pode acontecer apetecer-me dar uma volta nela durante a noite, gracejou. Sim, sim fique descansada, há água quente para tomar banho, tem é de deixar correr um bocado." Desta forma, terminava um dia longo, duríssimo e desafiante. 
Doía-me o corpo todo, custava-me caminhar, sentar e até perceber que alguns minutos atrás conseguira concluir com sucesso o Alqueva400.
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No último instante, quase a desesperar, o Jorge respondeu ao meu pedido de boleia no randonneurs googlegroups.
 Quando me veio buscar, faltava muito pouco para as vinte e três horas. Apreensiva, perguntei: "Achas que estamos em Vila Franca de Xira, antes da meia-noite?". O  Jorge estava bastante seguro e senti-me mais tranquila. Na viagem rápida, aproveitei para saber como decorrera a sua grande aventura de bicicleta até à Polónia. Só ele, uma bicicleta e o atrelado. Nem me esforcei muito para disfarçar a inveja. 
Eu e a minha bicicleta já estavamos equipadas, sem esquecer os mínimos detalhes. A Nikita ia pesadíssima, carregada de tralha. Mas o Jorge, além de ainda não estar equipado, tinha a bicicleta mais leve que se pode levar para um brevet. Nem bomba levo, revelou, deixando-me boquiaberta.

Complexo das Piscinas Municipais de Vila Franca de Xira. Cheguei tão tarde, que nem tive oportunidade de saudar todos os randonneurs ou de posar com eles para a foto de grupo. Só sobrou tempo para enganar o sono com um café, pois à meia-noite, as pessoas normais não saem para pedalar e eu costumo cair nos braços de Morfeu.

O vento soprava forte, quando arranquei. Calma, que vai bater de costas - pensei. Já me tinha mentalizado que ia pedalar sozinha toda a noite e muito possívelmente na totalidade dos quatrocentos quilómetros. Não era nada de especial pois já me habituei e gosto muito da tranquilidade noturna. Mesmo assim, rezei que todos os cães ferozes estivessem bem acorrentados. Um a um os randonneurs, que àquelas horas pareciam aves noturnas, como de costume, ultrapassaram-me e desapareceram engolidos pela noite.  O Rui Rodrigues, a minha companhia, nos primeiros cinquenta quilómetros até Pegões, em breve desaparecia com eles. A certa altura, passou por mim o Jorge que me dera boleia, num ritmo impróprio para cardíacos. A luz vermelha da sua bicicleta acabou por sumir numa curva.

A partir daí, viajamos, apenas eu e a Nikita, sempre  observadas por uma fabulosa Lua Cheia. Uma noite de sonho! O luar prateado tornou a viagem mais suave e a noite deixou de ser um bicho papão. A coincidência desta fase da Lua, facilitou-me bastante a vida, pois poupei a bateria da minha luz mais forte. Só usei uma Cateye à frente e experimentei outra luz traseira Cateye, bastante boa por sinal, gentilmente emprestada pelo Pedro Alves. Todos os brevets noturnos deveriam ser na Lua Cheia.

Sentia-me bastante insegura das minhas capacidades físicas. Não tinha a certeza daquilo de que seria capaz, ao contrário dos outros brevets que já fiz este ano, tanto os de duzentos como os de trezentos quilómetros, em que à partida sabia que eram favas contadas. Pedalar quatrocentos quilómetros é viajar para mais longe, testar o corpo, ir além daquilo que já tinha feito. Medo. Muito medo. Terei pernas? o coração aguenta? e as costas? vou arruinar os joelhos? Se não tentar nunca saberei. 
Ainda ponderei desistir de participar neste brevet, porque na última semana, uma fascite plantar muitíssimo dolorosa, a ponto de quase gritar quando caminhava, fez-me ir ao médico de urgência. Foi uma corrida aos antiinflamatórios; o ortopedista fez-me um par de palmilhas supinadoras que me devolveram a esperança de ainda conseguir ir ao Alqueva400.

Os quilómetros voavam com as horas. À noite, o tempo passa mais depressa e as subidas moem menos. 

Aos oitenta e cinco quilómetros atravessei Montemor o Novo, completamente deserta. Rara é a vez que passo por lá sem me cruzar com uma patrulha policial. Lá estavam eles, parados num cruzamento, controlando e observando-me com curiosidade.
A passagem por Évora não trouxe nada de emocionante, pois circulei pela zona das indústrias. 
Por vezes pensava nos outros. Onde andarão eles neste momento? já terão passado o Alqueva?


Ao romper da alvorada, ouvi cantar os galos  e estava a chegar a Reguengos de Monsaraz. Cento e cinquenta quilómetros sem parar e doida por encontrar uma casa de banho. Com os homens qualquer moita serve, não é justo. Estava tudo fechado e aqueles lugares são mesmo desertos. Tive de me conformar em pedalar mais um bocado até Mourão, o segundo posto de controlo ao quilómetro cento e setenta e cinco, para encontrar um imenso alívio. 

Os outros randonneurs já passaram há muito tempo, comentou a funcionaria do posto da Galp que me carimbou o cartão. 
Devagar se vai ao longe, respondi, enquanto comprava umas pilhas para o GPS, pois as minhas tinham descarregado.
O caminho para Moura, foi um delírio para os olhos e para a alma. O Guadiana, a Albufeira do Alqueva e todas as coisas belas da Natureza a que tenho direito. 

A Nikita no Alqueva.

Depois de passar o Alqueva, um pouco antes de chegar a Póvoa de São Miguel, estava eu a cantar em altos berros uma das músicas do meu repertório, quando senti uma presença humana atrás de mim. Era um ciclista alentejano equipado a rigor, nos seus treinos de sábado. "Vi quando passaram por mim em Évora um pouco antes das seis horas da manhã! É alguma prova? qual é o vosso site na net? qualquer um pode participar?" Depois disso despediu-se e desapareceu rapido, como uma mota; só voltei a vê-lo mais tarde em Moura.
Sabendo o que sei agora, ainda estava muito fresca quando encontrei a massacrante subida da Póvoa de São Miguel, toda em empedrado. Tive a companhia de um cão que rosnou mas não me impressionou. 


Quase a chegar a Moura, cruzei-me com dois randonneurs que me saudaram de longe. 
Já conhecia a subida de Moura e por isso, pedalei com calma até ao posto de controlo, onde reencontrei a Filomena  e o Apolinário que se preparava para partir. Com duzentos e nove quilómetros, depois de uma noite a pedalar sozinha, e sem dormir, é difícil fazer a transição para o mundo real, quando encontramos outros seres humanos.  A Filomena, bastante experiente, deu-me a entender que eu mantinha um bom ar, sem sinal de desgaste.

Uma vez vi numa foto de randonneurs americanos, a imagem de batatas doces assadas arrumadas numa mala Carradice. Quis experimentar e realmente resulta. Calorias muito saudáveis. Convém não assar muito para não ficarem desfeitas na mala. 
As minhas batatas doces, embrulhadas em papel de alumínio, tinham-se convertido em puré de batata há muitas horas; aliviei a carga da mochila e a fome.

Apesar do ligeiro desgaste tinha decidido que só parava para descansar ou dormir em Viana do Alentejo e a Filomena apoiou a ideia. Parti. Era meio dia.
Estava eu a pedalar nas terras do Alqueva, quando voltei a ver pela última vez, a Filomena que passou por mim de carro; ela  registou o momento numa foto. Depois disso fui sempre sozinha. O calor apertava e fazia um enorme esforço  para conter a sonolência que se apoderava de mim. Por vezes tinha de desviar o olhar, quando via a sombra convidativa de uma árvore. Apetecia-me desmontar e deitar-me. Resisti à tentação.
Entre Moura e Viana do Alentejo, a estrada é muito bonita e sem trânsito. A dureza do sobe e desce é um teste às nossas forças. Antes de chegar a Portel a subida parecia não ter fim. 


Os quilómetros no Alentejo são tão lentos. Cada quilómetro que passa é um quilómetro a menos, pensava eu no sentido positivo.
Em Viana do Alentejo, lá estava o bem disposto Paulo Leal como voluntário deste posto de controlo. "És a penúltima", informou-me. "Ainda falta o Apolinário". "Não pode ser, disse eu. Ele partiu antes de mim. Onde estará?"; "Se calhar parou em algum sítio", respondeu o Paulo.
Depois de carimbar o cartão e antes de decidir o que comer, adormeci profundamente no carro do Paulo. Acorda-me às quatro e meia, pedira. Quando abri os olhos ouvi a voz do Apolinário. Voltei a sentir-me bem e recuperada do intenso escaldão que sofrera.
Já tinhamos pedalado duzentos e setenta e tal quilómetros e faltavam cerca de cento e trinta. A partir daqui, tive sempre a companhia do Apolinário
Continuava com imensas dúvidas se seria capaz de fazer este brevet. Acreditava que ia rebentar a qualquer instante, pois as dores nos pés podiam intensificar-se com o esforço.
Que raio de ideia a minha a de estrear uns sapatos novos no dia de um brevet. Nestes eventos só se levam coisas testadas. O pé esquerdo tinha uma grande bolha e os sapatos que me pareceram leves e macios na loja, arranhavam a pele. Aproveitei todas as paragens para os descalçar. Punha palmilha, retirava palmilha.

Adorei Alcáçovas! Por causa da longa descida, fiquei a gostar ainda mais!



Chegamos a um lugar muito bonito chamado Santiago do Escoural, do mais alentejano que se pode querer. O Apolinário sugeriu que parassemos num café e eu concordei. Mandamos vir bifanas e coca-cola. 
À porta do café, numa esquina da rua principal da terra, um grupo de compadres, rodeou as nossas bicicletas, mirando-as com simpatia e sabedoria. Gente que gosta de bicicletas.

Estas são boas, comentavam. Vão lá comer as vossas bifanas que nós ficamos a vigiar as bicicletas. Aqui ninguém rouba nada. Tiravam medidas e discutiam o preço das nossas máquinas. Eu abanava a cabeça, sorrindo! Que exagero! Não custa metade disso.
Depois interessaram-se por nós e perguntaram: vão em direção a Montemor o Novo, não é? ainda faltam treze quilómetros. Há uma grande subida da serra, de três quilómetros, inclinada, mas faz-se bem. Depois é a descer para Montemor.
A paragem em Escoural fez milagres. Estava a sentir-me bastante bem. 


Quando chegamos a Montemor o Novo comecei a acreditar mais que havia muitas chances de conseguir completar o percurso no tempo previsto. Acho que até fiquei  demasiado confiante. Tanto que se até aí tinha vindo a poupar-me, a partir de Montemor o Novo, comecei a esticar-me no ritmo. Queria chegar a Pegões e depois disso era um salto até Vila Franca de Xira.
Já estava sem água e paramos pela última vez, em Vendas Novas numa casa de bifanas com um parque de estacionamento quase superlotado, para reabastecimento dos bidons e tambem para comer uma sopa. Um caldo verde inesquecível.
O vento noturno fresco, foi uma bênção divina. Os quilómetros enfadonhos da reta entre Pegões e Porto Alto, nunca foram tão faceis de devorar.
Não restavam dúvidas! Ia terminar o brevet!
Cada vez mais confiante o meu ritmo aumentou; ao fundo, via  Vila Franca de Xira. 
Entrei na Reta do Cabo em direção à ponte Marechal Carmona. Apesar do avançado das horas, o trânsito era muito intenso. Os carros e camiões passavam em grande velocidade.

Estremeci de alegria, ao passar a barreira dos quatrocentos quilómetros.
No instante em que completava  quatrocentos e quatro quilómetros e ao longe avistava as luzes da cidade, aproximando-me rapidamente da ponte,  aconteceu o inesperado... 
Primeiro senti que a bicicleta andava aos "esses" na estrada; fugia ao meu controlo e não conseguia mantê-la na berma para pedalar em segurança. Depois foi uma dor intensa no braço esquerdo e este adormeceu. Uma voz interior gritava "não desistas agora! já falta muito pouco...só cinco quilómetros!" e eu queria continuar a pedalar até à ponte e chegar a Vila Franca de Xira. Tomei uma decisão muito difícil: desmontei! Fiquei em lágrimas... 

Lição: nunca fazer coisas estúpidas, como pedalar quando se perde o controlo da bicicleta  e correr o risco de dar uma queda ou ser atropelada. Não é tão facil como parece, sobretudo quando o posto de controlo de chegada é já ali.
Mas sabendo o que sei hoje, foi o mais correto, pois trago na pele a recordação amarga do ano passado em que sofri uma queda bastante feia, porque não quis parar de pedalar quando os dois braços ficaram dormentes.

Conformada, fui a pé até à ponte, esperando que o braço melhorasse.
Não valia a pena enganar o corpo! Estava muito próximo do esgotamento total! Nem sopas, nem bifanas ou água faziam efeito. Teria de parar mais tarde ou mais cedo. Até a Nikita, de uma fidelidade titânica, estava cansada.

Apareceu o Apolinário que ao ver-me desmontada, pensou que havia problemas com a bicicleta  . 
O Apolinário foi um grande companheiro neste brevet e não me quis deixar caminhar sozinha na Reta do Cabo; acompanhou-me até à ponte. 
Perto das piscinas, recuperei alguma confiança; voltei a montar a bicicleta em segurança e pedalei até ao posto de controlo de chegada nas Piscinas de Vila Franca de Xira, chegando dentro do tempo, para alegria e alívio dos voluntários que me aguardavam. 
O meu quinto brevet de 2013, a minha estreia nos quatrocentos quilómetros e uma experiência altamente gratificante. 
Deixo aqui o meu agradecimento ao Apolinário como companheiro dos últimos quilómetros deste brevet e aos fantásticos voluntários que tornaram este brevet possível. 

Ser randonneur é uma longa aprendizagem; pode parecer estranho, mas não tem nada a ver com saber pedalar. Para mim é uma metáfora da vida.
Ser randonneur não é para me tornar famosa, ganhar o respeito, a admiração ou a inveja. Não é uma prova, logo não tenho necessidade de provar o que quer que seja. Não conquisto troféus, não bato records, nem apareço em fotografias épicas. Ser randonneur é estar sempre a aprender, procurar melhorar e estar preparada para qualquer desafio, em qualquer estrada, a qualquer hora, em quaisquer condições climatéricas. A vida também é isto.



segunda-feira, 6 de maio de 2013

Brm 300 Baixo Minho e Barroso


Mas o que é isto?- exclamei, incrédula, com as previsões do http://portuguese.wunderground.com/. Um brevet com bom tempo! não é natural!
O que é natural e fica bem é passarmos um dia a lutar contra os elementos impiedosos: vento de rajada, chuva diluviana, granizo, frio e alertas amarelos, laranjas e vermelhos da meteorologia. Num brevet que se preze, é natural carregarmos a bicicleta com impermeaveis, mudas de roupa, vestirmos roupa térmica, passa-montanhas, luvas wind stopper e tralha, imensa tralha.
Esfreguei as mãos de satisfação, ao repetir os mesmos passos que dei no BRM 200kms do Alto Minho.
A ansiedade do costume a estudar o road book como uma aluna aplicada que vai fazer exame de condução. Virar à direita, não virar à esquerda, seguir em frente, cuidado com a descida forte, tudo mas tudinho memorizado e analisado ao pormenor das cores das rotundas, no Google Earth. Desta vez não ia permitir desvarios como desvios de dez quilómetros por caminhos errados, como no ano passado. Gravei o percurso no GPS e carreguei três pares de pilhas energizer.
Ja estou bastante familiarizada com a Nikita, mas ao chegar a Esposende, fui visitar o sr Paiva da Espo Vespinha, para um olhar profissional. Deixou-me a bicicleta fina e ainda verificou a pressão dos pneus.
Sabado, 4 de maio dei um salto da cama quando vi que o relogio marcava cinco horas. Os randonneurs saíam daí a meia hora. Pânico! Nem comi as papas Cerelac, e vestindo-me à pressa fui a correr para a Delegação da Cruz Vermelha de Marinhas. Felizmente, na véspera ja deixara a bicicleta toda montada: sandes de carne assada do jantar, bananas e a camelbak atestada.
Depois das formalidades, partimos juntos e em ritmo tranquilo a confraternizar. O grupo era pequeno, compacto e com exceção do Marcelo um randonneur do outro lado do Atlântico, ja nos conheciamos. Até Azurara, seguimos sempre juntos.
Depois fomos criando grupos, mas durante muitos quilómetros senti a presença dos outros randonneurs, uns atrás, outros à frente, conversando, rindo, aconselhando, contando novidades...mas nunca sozinha! Uma experiência nova! Este ano, tem sido raríssimo pedalar a todalidade de um brevet, completamente sozinha; apesar de não ter um grupo, um/a parceiro/a como os outros, acabo sempre por encontrar alguem que não se importa de seguir o meu ritmo, o que é uma sorte!
Aos primeiros raios do Sol atravessamos Esposende, Póvoa do Varzim, Vila do Conde, Trofa, Lordelo,Vizela, Fafe, Lameira. Isto foi o aquecimento!
Desenhei uma tabela com todos os postos de controlo, as horas de fecho e analisando honestamente as minhas limitações físicas, decidi que se não conseguisse chegar ao Arco de Baúlhe antes do meio dia, que nunca chegaria a tempo à Carreira da Lebre. Com as subidas, o ritmo baixou e o calor era cada vez mais intenso.
Na subida das Lameiras, passou por mim um grupo animado de caminhantes (rapazes e raparigas) que desciam. Saudaram-me. A minha companhia a poucos metros de distância, eram o Fernando e o Jacinto (dois randonneurs do Porto). Os outros andavam por perto.
Conforme o previsto, alcancei a Padaria Central do Arco de Baúlhe, no tempo planificado. Fiquei mais tranquila!
Para quem não tomara o pequeno-almoço e pedalava movida pelo jantar de esparguete e carne assada da noite anterior, não estava a correr nada mal. Na fábrica dos pães gigantes, não vi o senhor que me atendeu no ano passado e com quem fiquei uma boa meia hora na conversa. Estava uma senhora igualmente simpatica admirada de ver uma mulher entre os randonneurs.
Não ia subir a serra do Barroso de barriga vazia...precisava urgentemente de calorias! Uma sopa e...algo mais! Antes de Cabeceiras de Basto, eu e o Jacinto, passamos por um estabelecimento e vendo umas bicicletas familiares estacionadas, tambem paramos. Era uma casa de comida, espaçosa, acolhedora, própria para refeições prolongadas e conversas sem fim. Nós não tinhamos assim tanto tempo.
Acho que nestes brevets, como mais num dia, que durante uma semana da minha vida normal! E coisas que é raro comer! Carne! argh! eu sou mais peixinho, mas tem de ser, senão não puxo a carroça. E bolos! só como bolos em dias de festa...mas devo ter batido o meu recorde com dois bolos de arroz e um mega croissant. Ficou tudo no alcatrão.
Iniciamos a temida ascensão. Cabeceiras de Basto-Torrinheiras! uma subida sem descanso, com pontos de forte inclinação. Eu e o Jacinto deixamos de ver o Fernando. Ouvi o Jacinto comentar: "estou a pedalar a 6km/h. Quando passei aqui de carro, não parecia assim tão difícil".
Para me abstrair da dureza da subida, ia comparando o caminho com as recordações do ano passado. Estava em Trás os Montes! Longe de tudo!


Desta vez, a estrada parecia outra; a Primavera  em festa, alegre, com uma exuberância de flores e de cores, que até onde os nossos olhos alcançavam, estendia-se pelas montanhas circundantes. Tanta montanha.  E novamente cascatas! Da montanha brotava água generosamente! Seria potável? A estrada antes solitária, tinha mais trânsito, talvez devido ao convite do bom tempo. Não parecia a mesma por onde eu passara no ano passado, na mais absoluta solidão, assustada com a ameaça das nuvens negras no horizonte e o som da trovoada.

- Quero lá saber se estou a pedalar a 5, 6, 7km/h! Ai que vontade louca de desmontar da bicicleta! Será que aguento isto? vamos lá, só mais uma curva! e agora é mais outra que a seguir vem uma descida! e a descida nunca mais aparecia! Nunca mais me apanham aqui nesta subida! - resmungava e depois lembrava-me de no ano passado ter prometido o mesmo e agora estava ali de volta.


A certa altura, vi um randonneur a caminhar, com a bicicleta à mão. Ao vê-lo, percebi que tinha concluído a  subida e estava bastante perto do Salto. No ano passado desmontei naquele mesmo lugar e desta vez tinha ido até ao fim sem desistir. Afinal, estava a safar-me razoavelmente!  O randonneur era o Marcelo, numa fase de grande desgaste. Voltou a montar a bicicleta até ao Salto, que é um planalto. Para o distrair, comecei a conversar com ele: "sabe? a minha cunhada também é brasileira, da Goianésia do Pará. Conhece?"; mas o Marcelo estava preocupado e perguntou-me se ainda havia mais subidas como aquela. Respondi que até à Carreira da Lebre ainda tinhamos que subir mais um bocado, mas com vários pontos de descanso. Ele decidiu parar num posto de abastecimento para comer e nunca mais o vimos. Nem o Fernando. Ouvi o Jacinto dizer que tinha esperança de o ver aparecer a qualquer momento... durante todo o resto do caminho. "Ele ha-de aparecer. Apanha uma descida e alcança-nos", mas nada do Fernando.
O José Ferreira, um dos organizadores locais, desta vez não pedalou mas surgia inesperadamente para tirar-nos fotos. Força! disse ele, da última vez que o vimos.
O calor era insuportável. Sentia a pele da cara a arder, sob a abundante camada de protetor solar fator 50! "Tomara que chova! tomara que chova! três dias sem parar" - cantarolava entredentes.
A segunda parte da subida, foi mais tranquila. Que contraste com as recordações do ano passado, a pedalar debaixo de uma chuva torrencial, enquanto as pedras de granizo metralhavam o meu capacete!
Ao ver a última rampa, tão familiar que estava aqui na memória,gravada a fogo, não queria acreditar que fosse tão facil. No ano passado cheguei aquele lugar, miseravelmente encharcada, gelada até ao tutano, mal dobrava as pernas e subi a rampa com a bicicleta à mão, inspirando pena a um condutor que passava. Lá estava a Carreira da Lebre! Um dia de Sol esplêndido, florido!
Surgiram o Gilberto e o Manuel Miranda que acabavam de almoçar no hotel escolhido como posto de controle. Um banquete! havia tanta comida que partilharam conosco. Não fiz cerimónias! de uma taça, o arroz de feijão deslizou goela abaixo à colherada. Só então é que reparei que estava sentada numa mesa requintada, com o capacete na cabeça! "Não faz mal! chama-se a isso, comer em segurança"- riu-se o Gilberto, enquanto eu pedia desculpas pela minha falta de maneiras.


Superada a barreira psicológica da Carreira da Lebre, e com cerca de 168kms, metade do brevet ja realizado, só queria desfrutar da beleza da região. Barragem do Alto do Rabagão, Venda Nova, Grande Lago da Caniçada...que tanto desejei visitar, materializavam-se à minha frente. Lembro-me de travar repentinamente ao ver a silhueta de um cavalo à solta, atravessar a estrada.
A noite caía rapidamente e sem esperar o por do sol, acendemos as luzes. Ainda faltava um obstáculo a superar que eu receava há muito. O Manuel Miranda ja me preparara para uma descida com uma forte inclinação para atravessar o rio Cávado, mas ai Jesus! não imaginava que fosse assim tão inclinada! E ainda bem, pois se soubesse tinha desmontado. Para piorar esquecera-me de ligar a bateria ao farol Cree XML e a luz da Cateye era insuficiente. No quilómetro 241, mergulhei na descida, gritando: "Jacinto! não se afaste muito de mim, tenho de ver bem o caminho"- ele levava umas luzes mais potentes, mas quem ia na frente era eu, avisando quando o piso estava mais irregular. Ultrapassado aquele emocionante downhill com muito ai, ai que estou aqui estou no chão, e antes de atravessar a ponte, liguei as luzes mais fortes; continuamos até Santa Maria do Bouro.

Estava a arrefecer, mas prevenidos ja tinhamos vestido os casacos e corta-ventos. Hesitei em enfiar os pernitos! "Que se lixe! agora não há tempo!" - pensei.
Que pena, mas que grande pena de não ter ficado mais tempo na Pousada de Santa Maria do Bouro. Tanta magia no silêncio daquelas paredes de pedra. Era o último posto de controlo. Por precaução vesti o arnês refletor. O Jacinto que se debatia com um problema mecânico da sua Branquinha, conseguiu dar um jeito e partimos.
O cansaço já era evidente! Eram vinte e duas horas e não podíamos cometer erros.
Porém, a partir de Amares (atravessamos uma rua principal pavimentada, com paralelos como se diz no Norte) o trânsito tornou-se infernal. Os condutores pareciam animados de um estranho receio que o fim de semana acabasse depressa e voavam pela estrada, BMW's, Audi's, Mercedes e mais uns motores alemães de elevada potência. Ficou comprovada a eficâcia das luzes, do colete, dos refletores nos tornozelos; o Jacinto brilhava como um pirilampo na estrada. Mas que eles se desviavam, lá isso é verdade! Ouvi muitos carros a buzinarem-nos mas eram mais os que nos saudavam e deram-nos prioridade nas rotundas e cruzamentos. Ainda assim, sempre com cautela.Também ouvi algumas propostas: "Oláaaaa! Queres boleia?"- gritaram de um carro superlotado de gente e de bebidas inflamáveis. No estado em que já ia, não era má ideia. Continuava a lutar para manter os reflexos.
As dores nos braços, nas costas e nos joelhos estavam sob controlo, porque estava a pedalar dentro dos meus limites. Felizmente, o meu companheiro de viagem, o Jacinto não parecia interessado em ganhar o prémio da montanha e pedalava num andamento, parecido com o meu. Pé ligeiro, poucas paragens, cabeça fria e nada de loucuras.
Barcelos! 300kms!
Já faltava muito pouco! É nesta fase, que a vespa pica. Só mais vinte quilómetros, mais ou menos.
Era domingo, dia 5 de maio; o meu pensamento voava: - daí a umas horas, às dez e quarenta e cinco, ia viajar no autocarro Expresso para Lisboa; tinha de entregar a lembrança do Dia da Mãe que comprara em Esposende; em casa, esperava-me uma pilha de testes para corrigir.
O Manuel Miranda dissera que daí em diante era só seguir as indicações "Esposende" e, assim fizemos.
Não esperava apanhar mais subidas, mas nesta altura, qualquer inclinação da estrada parecia penosa.
Estrada Nacional 13! Olha a Estalagem Zende! Animadíssima com um jantar dançante!
Faltavam só dois, dois quilómetros.
Cruz Vermelha de Marinhas! Ao longe, brilhavam as luzes  e as roupas dos randonneurs que nos esperavam.
320kms, mais de 5000m de acumulado e quase 20 horas a pedalar. Um doce sabor a desforra! Afinal não há tarefas sobre humanas, basta querer muito!
Ano 2013: dois brevets 200kms e dois brevets de 300kms concluídos. Não contem a ninguém mas eu aprendi a  andar de bicicleta em agosto de 2009.


"Quando algum desafio lhe bater à porta convide-o para entrar. Ele pode trazer um vendaval e deixar-lhe a casa de pernas para o ar, mas poderá também pôr a descoberto coisas que achava ter perdido."