“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 23 de março de 2014

BRM 300kms - Lost



Uma distância conquistada em equipa.



Senti que a minha vida estava a andar para trás depois de passar o último posto de controlo, no Maçãs, em Lavre. Nem a sopa de "escaldar a tripa", nem a tosta mista foram suficientes para enfrentar o poderoso adversário que me esperava nos últimos setenta quilómetros. 

Posto de controlo 1 - saída de VF Xira, 8h00
Então... até já!

Quando vi o percurso deste brevet, temi o pior: os cães (porque atravessamos zonas que parecem ter mais cães que gente), o vento forte que me aguardava entre Arraiolos e Évora Monte e uma viagem solitária. O vento em Arraiolos abanou a Nikita mas ainda não foi desta que fizemos um tapete; os cães apesar da vontade de nos  morder, estavam bem presos. O amigo Jacinto, a quem saúdo com verdadeira admiração e gratidão, foi a minha companhia neste brevet.

A bela estrada - nem o vento passava por aqui.

Terras do Ciborro - 1ª foto tirada a pedalar (isto é um momento histórico)
Lavre - na 1ª passagem do dia, ainda com 80 e tal kms.
Evora Monte - o grande Jacinto a conquistar o castelo.





Também estive lá!
Que ventania! Vou demorar mais tempo a descer que a subir.
Não é todos os dias que venho aqui a Évora Monte.


I made it to the top
Évora Monte - "a gente também já foi lá acima, três vezes, de carro", disseram estes compadres. Se me descuidasse ainda estava a conversar com eles agora.
Évora Monte - a abastecer os bidons no Bolas

Conseguimos fazer o percurso sem nos enganarmos nas zonas de navegação difícil e chegamos aos postos de controlo com relativa facilidade, quase sempre duas horas antes de estes encerrarem.  Esperávamos chegar  a V F Xira, antes das duas horas da manhã. 

Depois de Lavre, dois moços juntaram-se a nós até ao cruzamento para o Biscainho. São as voltas desta vida. Um dia quando pedalava na N10, furei. Sendo uma coisa rara, tinha pouca pratica, mas sabia o que fazer e estava a remover o pneu traseiro quando passou um grupo misto de bicicletas de btt e de estrada. Pararam, e praticamente obrigaram-me a aceitar a sua ajuda; conversamos um bocado sobre os brevets randonneurs que eles desconheciam. Um deles estava ali agora a pedalar ao meu lado nos últimos setenta quilómetros de um brevet 300k. "Olá! Não te lembras de mim? lembras-te daquela vez em que furaste? fomos ao site ver o que eram os randonneurs e agora estamos aqui", foi mais ou menos isto.

O frio, implacável e penetrante atacou-nos. Apesar de "artilhada" contra o frio, ele atacou-me por fases. O dedo mindinho da mão direita foi o primeiro a paralisar, depois a mão e a seguir os braços que arrefeceram. Gerir as mudanças com eficácia tornou-se uma tarefa complicada. Tirava as mãos do guiador e agitava as mãos, abrindo e fechando os dedos.  Na fase final da viagem percorremos os cerca de dezasseis quilómetros da Estrada do Campo, entre Benavente e a Reta do Cabo. Aí, o frio tornou-se impiedoso. Tinha o pé direito tão gelado que não conseguia encontrar o encaixe do pedal para fixar o sapato. Vi as luzes de VF Xira ao longe.
Já passava bastante das duas horas da manhã e reformulei os meus planos de chegar cedo.
A Nikita na noite.
O frio gelou-me as palavras. Nos perigosos quilómetros finais, aqueles em que a mente luta contra o corpo, contra a fadiga e contra a tentação de voltar para casa, íamos em silêncio... a conversa parecia ter morrido, embora nos tivessem advertido para evitar permanecermos calados durante muito tempo. "Falem, inventem, digam disparates, mas não fiquem calados".Estava difícil. Eu cantarolava baixinho:
 
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
V F Xira, parecia perto e distante ao mesmo tempo. Subimos a rampa de acesso  às piscinas, sem desmontar, chegando ao posto de controlo de chegada, onde nos esperavam. Por estar tão gelada, que as palavras saíam enroladas, levaram-me para um lugar mais abrigado e ofereceram-me uma chávena de chá quente. De imediato soltei a língua e comecei logo a tagarelar, feliz por ter concluído este desafio. Chegar é tão bom .
Não foi muito fácil e estas coisas saem-me do pelo.

                                                            
                                                       
Prova de passagem.
                                                                      
Mais um brevet concluído, inteiramente suportado pelo trabalho dos fantásticos voluntários, a quem agradeço.

E chegar é tão bom! (Obrigada pela foto, Ricardo Cruz)
                                                                         

segunda-feira, 17 de março de 2014

Beautiful day - "BRM 200 Alto Minho"


Beautiful day... é sempre assim um brevet no Alto Minho e pela terceira vez voltei a participar. Tenho muitos motivos para não falhar este evento em que cada quilómetro tem de ser devidamente apreciado. Aquelas paisagens são de sonho, mas daqui a algumas semanas quando a Primavera chegar em força, estarão ainda mais bonitas.
A caminho do norte
Sinceramente, a única parte cansativa é a viagem de cerca de 370 kms de regresso a Lisboa, de autocarro.





À saída - os sorrisos de confaternização

Eu e a Nikita - companheiras de longos caminhos.

Nos quilómetros iniciais ainda tive oportunidade de acompanhar o grupo dos simpaticos ciclistas do Club Ciclista Riazor da Corunha que este ano marcaram presença.

Club Ciclista Riazor da Corunha

A passagem pela Ponte Medieval sobre o rio Vez, a subida ao Sistelo, a descida vertiginosa até Monção, a  subida desde S. Pedro da Torre até S. Bento da Porta Aberta e depois de Rubiães, a estrada fascinante que acompanha o serpentear do rio Coura, reúnem todos os motivos para não falhar este brevet. Será preciso ainda acrescentar, as cascatas de água que brotam das paredes da montanha ou a imagem dos cavalos selvagens que pastam tranquilamente à beira da estrada?

Ponte Medieval sobre o Rio Vez

De ano para ano vou tentando gerir o meu motor de baixa potência;  após os quilómetros iniciais, a vontade de continuar cresce e o objetivo de chegar ao fim transforma-se em certeza. Há outros componentes que me facilitam a vida: bastante prudência  e alguma sorte. Tive sorte de estar um dia perfeito, da companhia ser boa e de mal sentir os quilómetros que passaram. Fui pedalando com este e aquele, mas a partir de Arcos de Valdevez, contei com a companhia do  Marcelo, que já conheço do brevet 300 do Baixo Minho e Barroso de 2013. Depois do posto do controlo do Sistelo, o nosso grupo cresceu com os animados  veteranos Fernando e Jacinto, companheiros de pedaladas de outros brevets. 

Almoçamos em Monção

Juntos, almoçamos em Monção, lanchamos em Caminha e chegamos a Viana do Castelo onde o trânsito fraturou o grupo durante alguns quilómetros. Voltamos a reagrupar depois de passar a ponte Eiffel, com o Marcelo a uma escassa distância de nós. 
Sem vestígios de cansaço, apenas sinais de alegria e satisfação, assim concluímos mais um brevet com um brilhozinho nos olhos.

Pela primeira vez consegui desmontar e montar a bicicleta sem pedir ajuda e, reunir coragem para pedalar nela depois; os guarda lamas  ficaram danificados durante a viagem de autocarro, mas foi por minha culpa que não os desmontei. Por essa razão, como ainda não tenho um suporte Bagman, a mala Carradice, roçava imenso na roda traseira e o pano da mala sofreu um desgaste bem visível. Terei de procurar outra solução.

O segurança da Estalagem onde estava hospedada, abriu-me a porta quando cheguei e simpatico, carregou a bicicleta escadas acima. "Hoje o jantar dançante está fraco - comentou. Há falta de senhoras. Não quer vir dançar?". Esta sugestão deu-me uma enorme vontade  de rir, minutos depois antes de mergulhar num sono profundo.



Este brevet foi organizado pela Via Veteris que mais uma vez nos recebeu com uma enorme simpatia. O meu obrigado ao José Ferreira, ao Manuel Miranda e aos voluntários.