“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

sábado, 4 de abril de 2015

Jumping to the next level

Não há nada pior que estar numa sala de espera de um hospital a aguardar uma consulta de neurocirurgia. Acho que só fui a um hospital bem disposta, cheia de expetativas nos dias em que nasceram a Lara e a Matilde, as minhas sobrinhas. Ir visitar um bebé recém  nascido é o único motivo agradável para ir a um hospital. O pior motivo é enfrentar as notícias que nos traz um médico cirurgião que já me abriu a cabeça, e portanto, em princípio sabe tudo o que eu tenho dentro dela. O médico, estava muito contente porque trazia boas noticias:- devia esperar provavelmente que eu tambem ficasse feliz. Informou-me que o tumor removido era benigno e eu em princípio, estava curada. Mas, teria de estar em casa mais um mês, ou seja já ia em dois meses em casa. Rigorosamente medicada durante mais seis meses, sem fazer esforços exigentes, nada de pedalar, ou andar a pé sozinha, devido às tonturas e vertigens provocadas pelo anti convulsionante.
Posso levantar pesos no ginásio, saltar? - perguntei, inocente. NÃO!- respondeu o cirurgião quase aterrorizado. Meu Deus, suspirei - seis meses parada e vou perder toda a massa muscular, flexibilidade e força conquistadas com tanto sacrifício. Quando recomeçar isto vai doer tanto. Pior de tudo! engordei 2kgs. A medicação não me fez bem: aumento de peso, queda de cabelo, uma sensação de vertigem que não me deixa grande margem de autonomia.
Preparada para 200kms do L'Antique.

Gosto de estar em movimento, do ar livre, vento no cabelo e do Sol na pele. Ficar em casa é péssimo. Porquê? o que fiz de errado? não fumo, não bebo, falo pouco ao telemóvel, tenho poucos carbs na dieta, não faço noitadas e sempre fui tão resistente! Será das linhas do poste de Alta Tensão que passam mesmo em cima das nossas salas de aulas? Será das radiações do smartphone? Suspeito de tudo. Esses tumores normalmente são benignos sossegou-me o médico, mas tão silenciosos que são descobertos por acaso, quando já cresceram bastante. No meu caso, já tinha o tamanho de uma tangerina e comprimia o cérebro quando caí na ponte de sentido único no Tramagal. Deixara a bela Constância há poucos minutos, e ia entrar na N118 em direção a Alpiarça, já com 113kms.
A Nikita de volta à Quinta da Cardiga

Lembro-me de ter passado numa terra das lezírias com o chão empedrado tão húmido e escorregadio, que dei um grito quando a bicicleta escapou-me, mas segurei-a com firmeza. Desta queda, esforçava-me e  não me lembrava do momento do embate, de aterrar no chão (nem tente, disse-me o médico, porque foi um apagão). Recordo-me de uma mão a segurar-me a cabeça: era um polícia à paisana que passava na ponte; perguntou-me o nome e eu pensei que me deixara adormecer profundamente mais tempo do que devia. Estava imobilizada no chão, com dores nas costelas e o lábio cheio de sangue. Vi a Nikita tristemente encostada a um muro, mas não me deixavam mexer a cabeça. Surgiram dois polícias que iam entrar de serviço e obrigaram-me a soprar para o balão e despistar o consumo de álcool (até parece! diria a Cher em Clueless). Uma voluntária dos Randonneurs Portugal que por acaso ia a passar por ali ficou com os meus pertences e acompanhou-me até ao hospital de Abrantes aguardando o resultado da TAC. Aparentemente eu tinha caído ao atravessar uma linha férrea e desmaiara, mas o resultado da TAC contava outra história. Antes de cair da bicicleta, eu já perdera a consciência, devido a uma massa do tamanho de uma ameixa na cabeça que não sabiam bem o que era e teria de ser removida.
O meu esforço, a minha aprendizagem, o meu treino e tantos sonhos ficaram desfeitos e a vida deu uma volta de 360º. A minha revolta durou alguns dias e quando estava à beira de um ataque de nervos convenceram-me a ser paciente porque a equipa de cirurgiões do S.José é do melhor que o país tem e estava em boas mãos. É verdade.
Que sorte! Não me raparam o cabelo.
Você teve muita sorte - disseram-me. É verdade, tive mesmo muita sorte, sobretudo pelas pessoas fantasticas que nunca me largaram um segundo e pelo timing, pelo local da queda: pois podia ter caído por exemplo na Quinta da Cardiga onde não passa cão nem gato e vagueiam os espíritos invisíveis de outras eras, pelas dezenas de salões vazios da mansão e pelos estábulos fantasmagóricos.  Fiz a simulação mental dos vários locais onde poderia ter caído e onde teria sido mesmo azar, para não dizer que estaria lixada! Eu preferia nunca ter caído, estar a divertir-me num  test drive às minhas pernas numa subida qualquer da Arrábida, nos lindos dias da Páscoa. Gostava de perder o medo de cair todas as vezes que saio de casa.
Quando ninguém estava a ver, numa manhã de domingo enchi de ar os pneus da miss Steel e enchi o peito de coragem: 1, 2, 3, não és mulher, nem és nada se não montares esta bicicleta. Sabia que era proibido, mas montei na mesma...pedalei só 5 kms, mas soube tão bem... as curvas e as rotundas foram a parte mais complicada. As pernas continuam com força, mas o ombro direito e o polegar esquerdo estão bastante lesionados. Também reconstruí o dente partido...quando tudo corre menos bem, rir é o melhor remédio. Perder o direito de decidir onde ir, quando, como e com quem; perder o controlo dos movimentos dos braços, das pernas, dos reflexos; ficar à mercê das decisões dos outros sobre o sentido do nosso destino é o pior dos infernos: "quando estiveres a atravessar o inferno, não pares"
Os gatos costumam ter sete vidas, convém não desperdiça-las.
As sessões de ioga têm feito milagres, pode ser que em breve recupere a força nas costas e a cobra pose sem dor; do que eu tenho mais saudades é da minha Box Jump. Ainda não tive coragem de voltar a nivelar para os 50cms. Enquanto a força for pouca, 40cms já é mais do que bom.
https://youtu.be/qqiWbvskAK0

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Please to meet you


May I introduce you the Diablo, my new Rivet saddle (from USA, via Carradice of Nelson)

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game 









Ainda não é em titãnio, mas o cromoly fica tão bem.

Depois de arruinar o meu amado Brooks B17 durante uma chuva diluviana, vamos ver como será pedalar com o Diablo no rabo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Duas pernas no Alentejo e faltou um bocado para a terceira

Em Alcácer fui feliz (mas não sabia), há muitos anos atrás. No regresso também fui... e o regresso não é passar na estrada ao lado, mas ficar, dormir, comer e sentir a picada de um mosquito. Só faltaram os mosquitos, não quiseram nada comigo desta vez.

Eram três pernas longas, cada uma com mais ou menos 200 quilómetros. Depois de completar cada "perna", regressavamos a casa isto é ao aconchego da tenda, para um breve sono reparador, uma refeição preparada por voluntários simpaticos e voltavamos a partir. A sensação de nunca estarmos sozinhos, que tinhamos pessoas à nossa espera, que nos animavam, estragavam-nos com mimos, foi um reforço positivo que não tem preço. Lembro-me de chegar exausta, com dores musculares na perna, uma cãimbra e outras dores que nem sei de onde vinham e depois de uns minutos sentada, a conversar, voltar a partir tão fresca como se estivesse a começar brevet.
As subidas no Alentejo são tramadas.
Conquistei os primeiros 200 quilómetros com sinais de desgaste. O vento já zumbia na cabeça.

Dormi uma hora.
Acordei e a noite caía. Ia pedalar nos 200 quilómetros seguintes, totalmente noturnos. Estava um frio de rachar. Os voluntários foram à minha sacola e escolheram as roupas. Vestes isto e não isto; calças estas luvas, etc.- foram fantasticos. Desapareci naquela roupa e camuflada sob a balaclava preparei-me para mergulhar na noite e percorrer o trajeto Alcacer-Comporta-Melides-Brescos-Sines e voltar. No ano passado tive medo. Este ano, embora receosa, o medo foi atenuado pela presença dos outros randos que regressavam. Avistava os farois das bicicletas e saudava: "Como está o caminho?". Resposta: "Tranquilo". Em Brescos, um cão apareceu do nada, silencioso e ensaiou a perseguição; dei um grito tão estridente que assustou o cão e acordou a aldeia.
As sombras da mata foram a minha companhia silenciosa durante esta travessia. Ter dormido uma hora fez uma diferença enorme. Ia bem disposta, descontraída cantarolando a música da Honey Ryder :

"Underneath the mango tree
Me honey and me can watch for the moon
Underneath the mango tree
Me honey and me make boolooloop soon

Mango, banana and tangerine
Sugar and ackee and cocoa bean
When we get marry we make them grow
And nine little child in a row
"

Quando passava um carro, calava-me para não denunciar o timbre feminino.
Ir a Sines e voltar de noite, foi bastante tranquilo. Curiosamente, o vento deu-me tréguas. Deixei de ouvi-lo a assobiar entre as árvores.

A partir daqui, as coisas começaram a correr mal. Primeiro porque não dormi e segundo devido a uma sensação muito dolorosa e incomodativa no músculo da coxa esquerda. Os voluntários foram os meus anjos da guarda. Encheram-me o prato com massa, encheram-me a camelbek com água, uma mão massajou o músculo dorido da perna, num único movimento e a dor desapareceu. Praticamente puseram-me em cima da bicicleta e empurraram-me dali para fora. Ainda me ria destas cenas muitos quilómetros depois a caminho do Torrão, pois custava-me perceber como uma morta de dores tinha ressuscitado e estava ali a pedalar quase fresca. Acho que o único erro, foi não ter atestado o ar nos pneus e ter levado a bomba errada.

Nunca me vou esquecer por muitos anos do trajeto entre Alcacer do Sal e o Torrão. Só 30 quilómetros. Oh pá! 30 quilómetros, o que é que isso custa? Ja tinha pedalado 400 quilómetros. Também não tinha dormido. O vento, o frio e o calor queriam brincar às escondidas comigo. A estrada parecia uma sucessão de piscinas. Depois de subir uma rampa inclinada, estar rota das pernas e morta de calor, seguia-se uma descida longa, o windchill e antes de ter tempo para descansar já estava a iniciar outra subida longa. E o Torrão, diziam as placas parecia já ali. Eu pensava que tinha identificado os meus adversários e estavam sob controlo. Mas não. O monstro do sono agigantou-se e sem exagero, comecei a ter ilusões. Devia estar semi adormecida e às tantas procurava avidamente por uma árvore, um arbusto para dormir. Ali, não faltam árvores, mas nenhuma cumpria os meus parâmetros e eu ia pedalando. Vi uma velha inclinada a apanhar ervas e quando cheguei perto, a imagem transformou-se num tronco seco. E foram várias cenas destas. Fiquei preocupada. Bastante. Passavam poucos carros. Aquilo é praticamento deserto. Vi uma carroça puxada por burros e um velho sentado. Seria outra ilusão? agora era real. "Bom dia" - cumprimentei, mas o velho continuou mudo e desconfiado. Nem um restaurante com uma esplanada à beira da estrada. Só bolotas.
Finalmente comecei a detetar sinais de presença humana. O Torrão fica num lugar alto e para atravessar a localidade é preciso enfrentar a subida, obviamente e muitos metros de um empedrado que deixa os miolos dolorosamente remexidos. O sono ficou momentaneamente suspenso nesta travessia agitada. Afinal podia dormir mais tarde - pensei. Devia prosseguir até Ferreira do Alentejo. Mais 29 quilómetros de piscinas diabólicas. Sempre desconfiei dos números acabados em nove: jovem de 69 anos, só custa 599 €, por exemplo. Sozinha na bela estrada, sofrida e solitária, o sono voltou a rondar e reapareceram as ilusões. Parecia ver silhuetas entre os troncos dos sobreiros e quando olhava melhor desfaziam-se. Ai que sono. Se apanho uma cama, caio nela como uma pedra- resmungava desesperada.

O Torrão tinha ficado para trás e só pedalara 4 quilómetros. Quando vou da minha casa a Setúbal, percorro 50 quilómetros que passam mais rápidos que um fósforo. Ali, a estrada parecia avarenta, agarrada aos quilómetros que demoravam a somar no visor do GPS. Outra ilusão claro. Eu é que devia pedalar mais depressa.
Comecei por ouvir um ruído estranho. Demorei alguns metros a admitir. Parei, desmontei, encostei a Nikita a uma árvore cheia de bolotas no chão, examinei o alfinete cravado no pneu dianteiro.  Respirei fundo. Estava a fazer o que era preciso, e desgraçadamente a bomba não fazia a pressão suficiente;  lembrei-me de ligar para Alcácer, porque a minha média real vinha a baixar desde Sines e quase batia no vermelho. Vais chegar fora do controlo - disseram. Vieram buscar-me.

Só não consigo perceber uma coisa: nos brevets anteriores em que tive de desistir, chorei baba e ranho. Desta vez, nem sinais de desgosto, vestígios de raiva, frustração, etc.. apenas a sensação de um fim de semana fantástico, a pedalar 440 quilómetros, com pessoas tão boa onda.
Obrigada Pedro, Filomena, Rui B. Paulo, e a lista é interminável de tão bons voluntários. E pelo convívio com os bravos randos, os que acabaram e os que vão acabar. Eramos 14 e cerca de metade concluíu o brevet.

A minha cue sheet:


Rando sketch


Regresso a Alcácer do Sal e às memórias da adolescência.
Ainda me lembro destes figos, sobretudo dos picos.
De partida para Sines

 Alcácer do Sal - Torrão. As belas vistas compensam a dureza do sobe e desce, o vento e os sintomas de privação de sono.


"I can’t always win, but I can always learn and grow"
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Conclusão: I have an unfinished business!

domingo, 4 de maio de 2014

ALQUEVA 400 kms - 3 de maio 2014

"Não ando mesmo nada, estou parada. O meu motor não tem grande potência. O que faço aqui no meio de tantos craques?" - é o pensamento miserável que me ocorre sempre que vejo toda a gente a passar-me à frente e a chegar antes de mim. Vai ser sempre assim e não se fala mais nisso.

Para marcar presença no meu 5º brevet randonneur de 2014, e conseguir chegar ao fim com o mínimo de sofrimento possível, juntei a experiência dos brevets anteriores, carradas de chamois, segui os conselhos úteis do "sleep, eat and drink some days before the ride", bom senso e toneladas de cautela. O brevet só acaba no fim - pensei, quando entrego o cartão amarelo de prova de passagem no último posto de controlo. Até lá a distância conquista-se quilómetro a quilómetro, uma subida depois da outra, vamos deixando para trás vilas, aldeias, pessoas que nos observam e outras que nos saúdam, polícias que perguntam o que fazemos àquelas horas na estrada, cães ferozes e cães fofinhos, paisagens de sonho, episódios caricatos e os lugares onde se come.
A Nikita aos coices, ansiosa por mais uma aventura

Neste brevet contei com um novo adversário: uma alergia da Primavera. Algo inédito, porque tolero praticamente tudo. A garganta inflamou-se, a voz começou a sair rouca e com fanicos, o nariz decidiu pingar, e a pele irritou-se abrindo erupções descontroladas. Com este mal estar físico apresentei-me à meia noite em VFranca Xira para pedalar 400kms. 

Arranjei companhia. O José, um vizinho meu, ainda estreante nos brevets, além de partilhar comigo o transporte, também me acompanhou, apesar do meu fraco andamento. Isto garantiu-me uma presença humana por perto durante a noite, durante o dia, nas etapas mais difíceis, nos quilómetros mais lentos e na contemplação das belas paisagens. A minha gratidão não tem fim. O José vinha bastante animado pois trazia uma bicicleta KTM de estrada, recentemente adquirida, que ia ser estreada num evento de longa distância. Apreensiva, olhei para o quadro (com os tons quentes em laranja que tanto agradam aos Carneiros como eu) e para os pedais de estrada, ambos em carbono, rezando para que corresse tudo bem.

Para que não restassem dúvidas, coloquei logo as cartas na mesa dizendo ao José que não sou nenhuma guerreira da estrada e que pedalo devagar. Ele não pôs obstáculos e mostrou-se compreensivo. 

Os postos de controlo foram: VFXira (zero kms) - Mourão (170 kms) - Moura (200 kms) - Viana do Alentejo (270kms) - VFXira (410kms).

O noite apresentou-se escura, com a Lua numa fase inicial de Quarto Crescente, que mal se notava. No manto noturno limpíssimo, ricamente bordado, as estrelas cintilavam nos lugares remotos e pouco iluminados por onde pedalamos. Senti o calor, o vento fraco e suspirei de alívio. Na verdade, o vento só nos castigou durante a travessia do Alqueva; no regresso, o vento soprou fresco e ameno como uma bênção neste sábado insuportavelmente quente. Um dia quase perfeito.

O nascer do Sol no Alentejo

Teria sido um dia perfeito se logo nos quilómetros iniciais perto de Vendas Novas, o pedal esquerdo Keo do José não se tivesse danificado. Ele nao desistiu, apesar do desconforto da pedalada. Fez o brevet todo com o pé a fugir do pedal.
A Nikita no Alqueva e o emplastro a estragar a foto

Fui conquistando os quilómetros um a um, de forma ponderada, para não deitar as coisas a perder.. Queria uma redenção do falhanço do brevet 300 do Barroso. Parei quando todos pararam. Comi, bebi e descansei sempre que pude. Até ao fim nada está garantido. 


O José e a sua KTM a chegar a Moura

Moura - pormenor

A Nikita em Moura

Último adeus ao Alqueva; o calor intenso e os quilómetros começavam a fazer estragos no corpo e na cara

As vilas que deixamos para trás.

Nunca se sabe o que pode acontecer de repente. Com este pensamento, entrei na reta do Cabo para completar os últimos dez quilómetros. A poucos metros à minha frente, pedalavam o José e o Nuno, um moço com uma bicicleta de BTT que se juntara a nós em Viana do Alentejo. Corria tudo tão bem. O José estava bastante animado e confiante. Eu continuava a pedalar com cautela no meu ram ram. Detesto aquela estrada, com carros e camiões que passam disparados, a velocidades arrepiantes. As bermas estão em mau estado, com cascalho solto, areia e alcatrão irregular. Não vou festejar nada, o brevet só acaba no fim - repetia mentalmente esta ladainha. Quando já tinhamos 405 quilómetros e só faltavam mais cinco para concluir, precisamente no mesmo local onde no ano passado dei o bonk, um bocado de alcatrão saliente, fez saltar a bicicleta do José. Vi as coisas acontecerem à minha frente muito depressa, como num filme: o José praticamente voou da bicicleta e foi cair no meio da estrada. Cada vez mais perto, aproximava-se um enorme camião em grande velocidade; dei um grito e contornei o corpo do José caído na estrada pela esquerda. Ao ver as luzes da minha bicicleta e o ciclista no chão, o camionista travou e foi por um triz que não aconteceu o pior. Fiquei em estado de choque.  O José levantou-se espantosamente, sem um único arranhão. Examinou a bicicleta e aconteceu o que ele temia: o quadro em carbono sofrera uma fratura no top tube.

Após uns instantes, o José decidiu arrancar sem dizer uma palavra e atrás seguimos eu e o Nuno em silêncio, mortificados. 

Foi desta forma estranha que concluímos o brevet, com um episódio nos últimos quilómetros que me fez gelar o sangue.

Um brevet só acaba no fim. Não se deve festejar antes de entregar a prova de passagem no último posto de controlo.

O melhor de tudo: terminamos e voltamos para casa.
Das duas vezes em que participei, consegui concluir, e até ao momento é dos brevets que me dá mais prazer. Uma frase que exprime a razão de gostar tanto desta distância:  "I like the 400K because it packs almost every aspect of randonneuring into a one day package. A 400K invevitably includes several hours of night riding, numerous controls and the need to manage your food and liquids. Additionally, the time limits are generous enough that there is plenty of time for conversations and longish meal breaks with other riders. ", Dan Diehn.

Agradecimentos aos voluntários que fazem "andar" o brevet, alguns dos quais não cheguei a ver. Aos companheiros do caminho: obrigada ao José, que é um santo e me aturou todo o dia (não é facil) e ao Nuno, com um espírito positivo tão contagiante e que nunca demonstrou sinais de cansaço apesar das rodas de btt não facilitarem muito.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

domingo, 27 de abril de 2014

Ainda existem dias perfeitos?



No tempo em que a Primavera era a minha estação preferida, só pensava em vestidos ligeiros e floridos, sandálias de tiras, pulseiras indianas a tilintar nos pulsos e na promessa da luz dos dias mais longos. Isso foi antes de encher o guarda fatos com roupa para pedalar.

Já não tenho uma estação preferida. Aprendi a apreciar os dias frios,  chuvosos, ventosos e a aceitar os dias e as noites bonitas, como oportunidades raras.

Ainda existem dias perfeitos?

Qualquer dia em qualquer mês do ano, transforma-se num dia perfeito quando pedalamos. Errado é esperar pelo dia perfeito.

Fernando Pessoa é que tinha razão:
"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
"


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Do Cristo Rei a Azeitão (e um pouco mais além)

Aproveitando a coincidência da pausa letiva da Páscoa com uma meteorologia simpática deixei a Nikita a "descansar" e dei uso à minha bicicleta de aço. No início foi complicado por sentir-me bastante fraca (agora percebo que nunca devia ter participado no brm300 nas terras do Barroso, pois estava a chocar uma gripe), mas com perseverança, fui somando quilómetros. É essa a ideia: somar horas em cima da bicicleta, mesmo que vá a "pisar ovos". Têm sido uns dias maravilhosos, de pedaladas solitárias, quase um retiro espiritual. Depois das chuvas deste Inverno do nosso descontentamento, o Sol voltou a brilhar e apetece abraçar novos caminhos.
Miradouro do Cristo Rei, Almada
A "Miss Steel" perdeu os seus bonitos guarda lamas, porque estes estavam sempre desalinhados e nunca percebi bem como os colocava direitos. Resultado: os guarda-lamas roçavam tanto nos pneus que deram-me cabo de dois pneus Continental e descobri porque razão furava tanto. A tela do pneu ficou tão roçada que parecia uma peúga gasta. Tenho de pensar numa outra solução para o tempo da chuva e porque habituei-me a pedalar  mantendo a roupa limpa.


Bacalhôa, Azeitão
Casais da Serra
Vai um mergulho?
Tudo isto existe, tudo isto é lindo e eu estive lá


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Riscos



 Numa semana marcada por uma gripe manhosa (quem me mandou andar à chuva?), por um descanso forçado e os rabiscos tinham de  aparecer.


Sempre gostei de desenhos inacabados, de ver figuras a emergirem do papel.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

À procura de um cão cicloturista

No início era uma brincadeira e depois tornou-se coisa séria.
A ideia que ainda era uma sementinha foi germinando até ao contato com canis, grupos de amigos de animais. Ainda não escolhi. Ainda não encontrei  "o cão". Mas é um projeto. Devo ter ficado entusiasmada com as inúmeras imagens que tenho recolhido e também impressionada com o drama do abandono de animais. Como não posso ficar com todos e nem tenho espaço, terá de ser um "patudo" muito especial. Por enquanto é só uma ideia.  Espero no futuro ter um destes companheiros.

As imagens do maravilhoso mundo dos cães cicloturistas são uma inspiração.




Paisagem de sonho











Um ator muito famoso apanhado a passear com o seu cão de estimação