“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 29 de dezembro de 2013

A útima volta do ano, de aço

Eu pensei que depois dos 400kms do Troia Sagres iria parar até ao final do ano. O ortopedista foi claro: tenho de descansar. Eu descansei, descansei, e como uma aluna aplicada segui o tratamento recomendado. 
Conhecem aqueles medos dos não pedalantes? São altamente contagiosos e eu fico muito vulnerável. À medida que os dias passam, sem tocar na bicicleta, assaltam-me receios esquisitos, como por exemplo o medo de já não saber pedalar, de não conseguir passar rotundas e cruzamentos,  de não conseguir tirar as mãos do guiador (um achievement que me deu tanto trabalho a aprimorar), medo de ser mordida ou derrubada por um cão, medo de sofrer bike jacking, para não falar do clássico medo de ser atropelada ou arrastada por um/a louco/a descontrolado/a. Claro que todos estes receios são insignificantes perto da mãe de todos os medos. Esse mesmo: eeeeek....de não voltar a caber dentro dos limites do meu bibs predileto.
Depois de tantos dias de pausa e, muitas calorias por gastar, saí para dar uma volta calma, nada de especial, vou só ali à serra e volto já, pensei.
Assim que a Charge pôs as rodas na rua, senti que o dia oferecia demasiadas possibilidades e seria uma pena desperdiça-las. O último domingo de 2013, não podia ser mais perfeito. Com temperaturas de dois dígitos, velocidade do vento de apenas um dígito, um Sol risonho e um trânsito automóvel ao meu gosto. 
The bike with a soul, that loves me back.
É frequente pedalar na zona antiga do Monte de Caparica, entrar no território do campus universitário e depois descer pela Trafaria, apreciando a última imagem do rio Tejo e o belo panorama da capital. Nos últimos trinta anos pouco mudou naquela zona. Passar por ali a pedalar é resgatar muitas memórias adormecidas.
Deixando a Trafaria para trás, a subida para o Lazarim oferece duas opções: seguir pelas ruas movimentadas do Botequim e da Charneca da Caparica, ou descer pela Sobreda da Caparica, por uma rua estreita com bermas em mau estado, onde os carros passam apressados. Normalmente, sigo pela Sobreda, como fiz hoje e só respiro fundo, quando chego a Corroios e entro, finalmente na N10 já com cerca de 16kms. A longa N10 vai levar-me até à serra da Arrábida.
Houve um tempo, em que me levantava de madrugada para sair às 7h00 da manhã de casa. Ultimamente, com receio das partidas que o frio prega, não vá uma gripe incapacitar-me durante uns dias, aguardo que a temperatura suba uns dígitos antes de sair de casa. Sinto uma pontinha de inveja dos bravos com quem me cruzo às 11h00 da manhã a regressarem de uma volta, enquanto eu estou ainda a começar.
A partir de Azeitão, a silhueta da serra torna-se mais nítida e apelativa. Não resisto ao chamamento e depois de passar a rotunda dos Picheleiros, subo ao Alto das Necessidades antes da grande descida que me vai levar em direção ao Vale da Rasca. Arrábida! Finalmente! Tantos dias à espera deste dia.
Mata do Solitário
Passam  poucos minutos das 12h00 e já somei 50kms.  Passo pela Figueirinha e depois por Galápos. O mar sempre azul e transparente daquele lugar é quase hipnótico. Agora não páro de subir. Já ando a subir há muito tempo. Começo a ver a densa Mata do Solitário. Preparo-me para atravessar a Mata, ou seja para dois quilómetros de subida. É um novo teste para a Charge. Ainda a subida vai no início e agigantam-se os fantasmas do fracasso total, ora por causa do joelho, ora por causa da bicicleta que não é adequada. "Ela vai aos mesmos sítios que as outras vão" - disse-me alguém. O Sol bate de frente e tenho de olhar para baixo, não vejo a subida, só vou apurando o ouvido para a aproximação de carros e dos motards domingueiros. Hoje, estou tão concentrada que não aprecio devidamente a Mata que é um retrato do que eram as florestas do mediterrâneo há muitos milhares de anos, e é um dos meus maiores deleites na serra.
Os últimos metros da subida são terríveis, mas a Charge não se intimida e, de repente...cheguei. Fantástico.


Viro à direita para uma nova subida, conhecida pela subida do Convento, com uma inclinação média de cerca de 9,6% distribuída por 1,3kms. A esta hora, passam poucos ciclistas mas estão lá outros "filhos" do vento. Pairam lá em cima, no seu voo em parapentes multi coloridos. Quando chego ao topo da subida do Convento oiço aplausos. É uma senhora que me cumprimenta. Retribuo. Hoje o dia está correr bem. Preparo-me para descer da serra e voltar para casa. São cinco quilómetros de descida e um panorama lindíssimo. Chego ao fim, com 72kms, quando me lembro que tinha prometido a mim própria tirar uma foto da Charge para meter no blogue e, voltei a subir. Agora é facil, já tenho os músculos aquecidos. Facil, o diabo! Há duas horas que ando a subir e só agora me apercebo de uma coisa: desde que saí de Almada, ainda não meti o pé no chão. Os dias frios são assim traiçoeiros, pois inibem a sensação de frio e de fome. A subida é feita com calma. Ao quilómetro 83 páro finalmente, tiro fotos à bicicleta, as selfies que estão na moda (mas não vou publicar, tal era o meu estado de deterioração) e aproveito para comer e beber. Tenho de substituir a grade de bidon, pois esta não me facilita beber água em andamento.
É tempo de voltar para casa. Digo adeus à serra, ao silêncio e regresso à confusão da N10.
Já somei 115kms quando atravesso a bonita Baía do Seixal, com demasiado movimento para o meu gosto. Sinto os sinais de alerta: irritação, impaciência. Estou exausta. Não trouxe comida suficiente. Só duas bananas e água num bidon. Afinal ia só dar uma voltinha curta, nada de especial. Sinto que está na hora de parar e, volto para casa de comboio.

Tem campaínha?

Um passeio domingueiro para cumprir o ritual do fim de ano:









terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Arnica - como prevenir ou evitar o agravamento das lesões

O nome arnica que significa pele de cordeiro, foi atribuído em função da aparência das folhas aveludadas de toque suave e macio. É uma planta de regiões temperadas que floresce  na América do Norte (ocidental). 



Ingredientes:
Extracto de Arnica
Óleo de Milfurada
Óleos essenciais de Hortelã-Pimenta
Alecrim
Alfazema
Gaultéria
Cânfora




Propriedades da Arnica:
Com propriedades analgésicas (alivia dores) e anti-inflamatórias combinadas, a arnica é amplamente usada para tratar contusões, distensões musculares, roturas de ligamentos, clarear e desfazer edemas e hematomas, entorses, cicatrização de ferimentos e furúnculos, reumatismos, traumatismos e outras lesões desportivas. Além de ser considerada estimulante e ter propriedades tónicas.

Nota: Até à data apliquei poucas vezes e pareceu-me uma boa escolha.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Passeio ao entardecer

Uns metem-se nos centros comerciais e em filas de trânsito intermináveis para as compras de Natal. Outros refugiam-se no silêncio da montanha, horas depois de terem passado todas as vedetas do ciclismo da região.


Afinal, tenho de refletir sobre a melhor solução para grades de bidon. O quadro é demasiado pequeno e pela experiência que tenho com a Nikita, comigo, só funcionam as grades de bidon com saída lateral.

Perdoa-me Nikita, mas a Charge é mesmo viciante. Não tinha percebido o significado smooth ride...até agora.



domingo, 15 de dezembro de 2013

Tróia-Sagres-Lagos-Troia

O destino!
Neste fim de semana andei a alimentar o monstro papa-quilómetros. Fui a Sagres e voltei. O meu ritmo foi bastante cauteloso, porque ainda guardo na memória as mazelas da tendinite pata de ganso que me obrigou a parar demasiado tempo. Queria testar as potencialidades da luz AXA gerada pelo S.O.Nabendynamo e até que ponto o atrito na roda iria prejudicar o andamento. Belíssima luz, pura, intensa, chegou para mim e para os meus companheiros eliminando as preocupações que tinha até agora com a duração das pilhas. Disseram-me que a Nikita brilhava como um camião.

A frase certa!


A Nikita aos coices, à espera para entrar em ação!

A atravessar Aljezur







Descoberta por um paparazzi.

Acrescentei uma segunda fita ao guiador (custou habituar-me ao laranja vivo, mas enfim), em vez de colocar gel e as minhas mãos agradeceram.



A parte boa é saber que somos tantos a pedalar em Portugal!

 Encontrei muita gente conhecida, outros que me conhecem não sei porquê e conheci pessoas interessantes. O melhor de tudo foi a bela companhia, o tempo divino para pedalar e finalmente fazer as pazes com o Troia-Sagres, ja que das outras vezes, não correu muito bem.

http://www.freebike.pt/v1.5/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=52
As paisagens algarvias da costa vicentina no seu melhor.
http://www.freebike.pt/v1.5/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=52
Cheguei. Cheguei tranquilamente, como nunca pensei ser possível chegar a Sagres há alguns anos atrás, debaixo de chuva, vento, sem luzes, gelada de frio e esfomeada. Este ano exibia um sorriso quase tão luminoso como o Sol.
A minha primeira foto de jeito na chegada a Sagres

O pior do Troia - Sagres: os carros de apoio. Engoli fumo dos automóveis, fizeram-me tangentes, tive de aturar uns pseudo-prós que gritavam "força", "já falta pouco", "você assim tão carregada, está a pensar chegar a Marrocos?" ou "nesse ritmo a que horas vai chegar a Sagres?" e, só suportei  porque sou um poço de paciência sem fundo.


No regresso a Tróia - Odeceixe a descer!
 O regresso correu bastante melhor que a ida, graças ao vento ameno, à temperatura agradável, à redução significativa do trânsito e por ter conhecido lugares por onde nunca tinha passado. Experimentei o prazer de pedalar junto à marina de Lagos numa manhã de domingo e de subir até Bensafrim que não conhecia. Fiquei verdadeiramente deslumbrada com a subida de Espinhaço do Cão.
237 kms no sábado: Troia-Sagres-Lagos
190 km no domingo: Lagos-Troia




Termino assim em grande as pedaladas de 2013, da forma mais ecológica possível. Reduzi os 15 000 kms de 2012 para 13 000kms  em 2013. Em vez de pedalar para encher a barriga do papa-quilómetros tentei alimentá-lo com quilómetros de qualidade...


 O caminho é o que importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar. (Louis L'Amour)

domingo, 8 de dezembro de 2013

Os primeiros 100kms de aço

8 de dezembro 2013

Quando acordei esta manhã, fui à janela ver se o vento ainda soprava muito forte. Nem uma folha se movia. Perfeito- pensei e voltei para a cama. O relógio marcava 04h00.
Às 07h00 levantei-me e Sol que nesta altura do ano invade o quarto estava encoberto. Aborrecida fui à janela confirmar as minhas suspeitas. Caíra um nevoeiro cerrado. Oh céus! bradei, quando é que voltam os dias perfeitos. Mesmo assim, equipei-me rigorosamente para enfrentar as temperaturas baixíssimas deste Outono impiedoso. Os meus planos de começar a pedalar às 08h00 da manhã mudaram para as 10h00 e depois foram adiados para as 11h00. Eram 11h14, o Sol estava a reaparecer quando  comecei a pedalar em direção à Arrábida. A Nikita ficara em casa e levava comigo a Charge.
Que louca, pensava! subir a serra numa bicicleta de aço. Nem devo conseguir subir o Alto das Necessidades! Lá segui eu pela N10. Passei a subida de Negreiros, Brejos de Azeitão, Picheleiros e a Charge rolava, rolava, suavemente. Eu continuava desconfiada. Até onde é que este "ferrinho" consegue ir?
Surpresa! subi o Alto das Necessidades sem ouvir queixas do joelho. A nova cassete 11-32, é um descanso. A subida do Vale da Rasca pareceu-me quase plana.
Em sentido contrário passavam os ciclistas domingueiros vestidos de lycra colorida e montados em bicicletas ultra leves dignas de um Tour de France. Olhavam a minha Charge com guarda lamas, com estranheza. Ataquei a subida da serra pelo lado da Secil. Ouvi uma saudação numa língua estrangeira. Olhei e era um turista vestido com trajes casuais. Mais à frente passei por um randonneur meu conhecido de muitos brevets e novo cumprimento. Até ao fim da subida, tive a companhia de um ciclista que vinha a comentar: "ela (a bicicleta) está aguentar-se bem".
Lá em cima, o vento soprava ameno e o Sol brilhava intensamente.
Descida pelo Convento. Ai que frio! Nova descida vertiginosa até às praias. Quase a deixar a serra, ainda faltava testar a última subida, a tal que tem um segmento com 9% de inclinação. Sem grande sofrimento e, tranquilamente passei a subida dos Picheleiros. Quase a atingir os 60kms, lembrei-me que não comia nada desde as 10h00 da manhã e o relógio marcava 14h00. Parei para comer uma banana. O frio inibe a sensação de sede e, convém tomar os devidos cuidados para não ser demasiado tarde.
O trânsito de regresso a casa, típico aos domingos começava a intensificar-se. Eu só tinha uma preocupação: chegar a casa antes das 17h00, pois apenas levava luzes de presença e daí a pouco deixaria de ver o caminho.
Cheguei à Trafaria aos 100kms, quando ao meio da rampa, tive de abortar a subida. Uma matilha de cães abandonados de grande porte (e hoje vi imensos) ladrou para mim com hostilidade. Faltava pouco para o pôr do Sol e segui um caminho alternativo. Cheguei a casa aos 110 kms e mais de 1700metros de acumulado, obviamente satisfeita.
A Charge passara no teste com distinção; as dores no corpo eram insignificantes.
Pontos a corrigir: o guiador e o selim. Sinto falta do guiador da Velo Orange Gran Cru Rando e nada se compara a um selim Brooks.Também preciso trocar o porta bidons. Prende com tanta força que não  consigo tirar o bidon e voltar a coloca-lo em segurança, em andamento. Também gostaria de não ouvir o barulho do guarda-lamas traseiro. Penso que deve ser um defeito de fixação. Parece que levo umas latas de alumínio a chocalhar. Nem preciso de campainha.
E nesta semana, com as voltas diárias casa-trabalho-casa, a Charge já somou 258kms. É tão viciante pedalar nela. Apetece andar, andar.
Se a levo um dia para um brevet randonneur? quem sabe.
I'm falling in love again.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Luzes de dínamo


Esperemos que agora as noites se tornem menos densas, as estradas menos traiçoeiras e a minha bicicleta muito mais visível. Esperemos que nunca mais volte a  preocupar-me com pilhas descarregadas.

Dinamo SON-deluxe
Luz frontal AXA Luxx70


Que nenhum buraco, pedra, ramo, raíz, estrada de pedra, estrada de terra batida, estrada em obras, caminho sem saída, ou cão escondido atrás da moita, se esconda desta luz.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Steel is real

Agora ficou tudo baralhado.
A Nikita, não podia ser filha única, e convinha ter outra parceira de pedaladas mais modesta, para poupar os componentes da minha titânica. Perdi algumas horas de leitura e a aborrecer muita gente com emails e perguntas. Tinha a certeza que não queria voltar ao alumínio ou ao carbono. E o impensável foi encontrar o reino quase esquecido das bicicletas de aço
Descobrir os segredos do aço, uma tecnologia tão antiga que os humanos dominam desde a idade do ferro, a hierarquia das ligas aço, os grandes fabricantes, foi uma ocupação agradável nestes dias frios e escuros em que fiquei mais tempo em casa devido ao mau tempo e ao descanso forçado para sarar lesões após um ano intenso de longas pedaladas.
Às vezes piscava o olho às bicicletas de aço vintage, mas desconfio que não me habituaria.

Saber que posso pedalar confortavelmente numa bicicleta que absorve as vibrações do terreno, que pode ser restaurada é um argumento forte. É outra religião.
Supostamente da Inglaterra (ou quem sabe de Taiwan?) chegou a minha pequena Charge esbelta, linda mas pouco leve. A minha primeira cromoly.
Fiz uma viagem ao "novo clássico" e deixei-me seduzir por esta joia. Uma bicicleta simples, longe do circo das bicicletas da moda, de grande performance, mas com uma personalidade especial.
Esta bicicleta é das que têm alma.






Para fazer alguns "trabalhos de casa" enquanto a Nikita descansa.