Eu pensei que depois dos 400kms do Troia Sagres iria parar até ao final do ano. O ortopedista foi claro: tenho de descansar. Eu descansei, descansei, e como uma aluna aplicada segui o tratamento recomendado.
Conhecem aqueles medos dos não pedalantes? São altamente contagiosos e eu fico muito vulnerável. À medida que os dias passam, sem tocar na bicicleta, assaltam-me receios esquisitos, como por exemplo o medo de já não saber pedalar, de não conseguir passar rotundas e cruzamentos, de não conseguir tirar as mãos do guiador (um achievement que me deu tanto trabalho a aprimorar), medo de ser mordida ou derrubada por um cão, medo de sofrer bike jacking, para não falar do clássico medo de ser atropelada ou arrastada por um/a louco/a descontrolado/a. Claro que todos estes receios são insignificantes perto da mãe de todos os medos. Esse mesmo: eeeeek....de não voltar a caber dentro dos limites do meu bibs predileto.
Depois de tantos dias de pausa e, muitas calorias por gastar, saí para dar uma volta calma, nada de especial, vou só ali à serra e volto já, pensei.
Assim que a Charge pôs as rodas na rua, senti que o dia oferecia demasiadas possibilidades e seria uma pena desperdiça-las. O último domingo de 2013, não podia ser mais perfeito. Com temperaturas de dois dígitos, velocidade do vento de apenas um dígito, um Sol risonho e um trânsito automóvel ao meu gosto.
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| The bike with a soul, that loves me back. |
Houve um tempo, em que me levantava de madrugada para sair às 7h00 da manhã de casa. Ultimamente, com receio das partidas que o frio prega, não vá uma gripe incapacitar-me durante uns dias, aguardo que a temperatura suba uns dígitos antes de sair de casa. Sinto uma pontinha de inveja dos bravos com quem me cruzo às 11h00 da manhã a regressarem de uma volta, enquanto eu estou ainda a começar.
A partir de Azeitão, a silhueta da serra torna-se mais nítida e apelativa. Não resisto ao chamamento e depois de passar a rotunda dos Picheleiros, subo ao Alto das Necessidades antes da grande descida que me vai levar em direção ao Vale da Rasca. Arrábida! Finalmente! Tantos dias à espera deste dia.
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| Mata do Solitário |
Os últimos metros da subida são terríveis, mas a Charge não se intimida e, de repente...cheguei. Fantástico.
Viro à direita para uma nova subida, conhecida pela subida do Convento, com uma inclinação média de cerca de 9,6% distribuída por 1,3kms. A esta hora, passam poucos ciclistas mas estão lá outros "filhos" do vento. Pairam lá em cima, no seu voo em parapentes multi coloridos. Quando chego ao topo da subida do Convento oiço aplausos. É uma senhora que me cumprimenta. Retribuo. Hoje o dia está correr bem. Preparo-me para descer da serra e voltar para casa. São cinco quilómetros de descida e um panorama lindíssimo. Chego ao fim, com 72kms, quando me lembro que tinha prometido a mim própria tirar uma foto da Charge para meter no blogue e, voltei a subir. Agora é facil, já tenho os músculos aquecidos. Facil, o diabo! Há duas horas que ando a subir e só agora me apercebo de uma coisa: desde que saí de Almada, ainda não meti o pé no chão. Os dias frios são assim traiçoeiros, pois inibem a sensação de frio e de fome. A subida é feita com calma. Ao quilómetro 83 páro finalmente, tiro fotos à bicicleta, as selfies que estão na moda (mas não vou publicar, tal era o meu estado de deterioração) e aproveito para comer e beber. Tenho de substituir a grade de bidon, pois esta não me facilita beber água em andamento.É tempo de voltar para casa. Digo adeus à serra, ao silêncio e regresso à confusão da N10.
Já somei 115kms quando atravesso a bonita Baía do Seixal, com demasiado movimento para o meu gosto. Sinto os sinais de alerta: irritação, impaciência. Estou exausta. Não trouxe comida suficiente. Só duas bananas e água num bidon. Afinal ia só dar uma voltinha curta, nada de especial. Sinto que está na hora de parar e, volto para casa de comboio.
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| Tem campaínha? |
Um passeio domingueiro para cumprir o ritual do fim de ano:




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