“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Please to meet you


May I introduce you the Diablo, my new Rivet saddle (from USA, via Carradice of Nelson)

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game 









Ainda não é em titãnio, mas o cromoly fica tão bem.

Depois de arruinar o meu amado Brooks B17 durante uma chuva diluviana, vamos ver como será pedalar com o Diablo no rabo.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Duas pernas no Alentejo e faltou um bocado para a terceira

Em Alcácer fui feliz (mas não sabia), há muitos anos atrás. No regresso também fui... e o regresso não é passar na estrada ao lado, mas ficar, dormir, comer e sentir a picada de um mosquito. Só faltaram os mosquitos, não quiseram nada comigo desta vez.

Eram três pernas longas, cada uma com mais ou menos 200 quilómetros. Depois de completar cada "perna", regressavamos a casa isto é ao aconchego da tenda, para um breve sono reparador, uma refeição preparada por voluntários simpaticos e voltavamos a partir. A sensação de nunca estarmos sozinhos, que tinhamos pessoas à nossa espera, que nos animavam, estragavam-nos com mimos, foi um reforço positivo que não tem preço. Lembro-me de chegar exausta, com dores musculares na perna, uma cãimbra e outras dores que nem sei de onde vinham e depois de uns minutos sentada, a conversar, voltar a partir tão fresca como se estivesse a começar brevet.
As subidas no Alentejo são tramadas.
Conquistei os primeiros 200 quilómetros com sinais de desgaste. O vento já zumbia na cabeça.

Dormi uma hora.
Acordei e a noite caía. Ia pedalar nos 200 quilómetros seguintes, totalmente noturnos. Estava um frio de rachar. Os voluntários foram à minha sacola e escolheram as roupas. Vestes isto e não isto; calças estas luvas, etc.- foram fantasticos. Desapareci naquela roupa e camuflada sob a balaclava preparei-me para mergulhar na noite e percorrer o trajeto Alcacer-Comporta-Melides-Brescos-Sines e voltar. No ano passado tive medo. Este ano, embora receosa, o medo foi atenuado pela presença dos outros randos que regressavam. Avistava os farois das bicicletas e saudava: "Como está o caminho?". Resposta: "Tranquilo". Em Brescos, um cão apareceu do nada, silencioso e ensaiou a perseguição; dei um grito tão estridente que assustou o cão e acordou a aldeia.
As sombras da mata foram a minha companhia silenciosa durante esta travessia. Ter dormido uma hora fez uma diferença enorme. Ia bem disposta, descontraída cantarolando a música da Honey Ryder :

"Underneath the mango tree
Me honey and me can watch for the moon
Underneath the mango tree
Me honey and me make boolooloop soon

Mango, banana and tangerine
Sugar and ackee and cocoa bean
When we get marry we make them grow
And nine little child in a row
"

Quando passava um carro, calava-me para não denunciar o timbre feminino.
Ir a Sines e voltar de noite, foi bastante tranquilo. Curiosamente, o vento deu-me tréguas. Deixei de ouvi-lo a assobiar entre as árvores.

A partir daqui, as coisas começaram a correr mal. Primeiro porque não dormi e segundo devido a uma sensação muito dolorosa e incomodativa no músculo da coxa esquerda. Os voluntários foram os meus anjos da guarda. Encheram-me o prato com massa, encheram-me a camelbek com água, uma mão massajou o músculo dorido da perna, num único movimento e a dor desapareceu. Praticamente puseram-me em cima da bicicleta e empurraram-me dali para fora. Ainda me ria destas cenas muitos quilómetros depois a caminho do Torrão, pois custava-me perceber como uma morta de dores tinha ressuscitado e estava ali a pedalar quase fresca. Acho que o único erro, foi não ter atestado o ar nos pneus e ter levado a bomba errada.

Nunca me vou esquecer por muitos anos do trajeto entre Alcacer do Sal e o Torrão. Só 30 quilómetros. Oh pá! 30 quilómetros, o que é que isso custa? Ja tinha pedalado 400 quilómetros. Também não tinha dormido. O vento, o frio e o calor queriam brincar às escondidas comigo. A estrada parecia uma sucessão de piscinas. Depois de subir uma rampa inclinada, estar rota das pernas e morta de calor, seguia-se uma descida longa, o windchill e antes de ter tempo para descansar já estava a iniciar outra subida longa. E o Torrão, diziam as placas parecia já ali. Eu pensava que tinha identificado os meus adversários e estavam sob controlo. Mas não. O monstro do sono agigantou-se e sem exagero, comecei a ter ilusões. Devia estar semi adormecida e às tantas procurava avidamente por uma árvore, um arbusto para dormir. Ali, não faltam árvores, mas nenhuma cumpria os meus parâmetros e eu ia pedalando. Vi uma velha inclinada a apanhar ervas e quando cheguei perto, a imagem transformou-se num tronco seco. E foram várias cenas destas. Fiquei preocupada. Bastante. Passavam poucos carros. Aquilo é praticamento deserto. Vi uma carroça puxada por burros e um velho sentado. Seria outra ilusão? agora era real. "Bom dia" - cumprimentei, mas o velho continuou mudo e desconfiado. Nem um restaurante com uma esplanada à beira da estrada. Só bolotas.
Finalmente comecei a detetar sinais de presença humana. O Torrão fica num lugar alto e para atravessar a localidade é preciso enfrentar a subida, obviamente e muitos metros de um empedrado que deixa os miolos dolorosamente remexidos. O sono ficou momentaneamente suspenso nesta travessia agitada. Afinal podia dormir mais tarde - pensei. Devia prosseguir até Ferreira do Alentejo. Mais 29 quilómetros de piscinas diabólicas. Sempre desconfiei dos números acabados em nove: jovem de 69 anos, só custa 599 €, por exemplo. Sozinha na bela estrada, sofrida e solitária, o sono voltou a rondar e reapareceram as ilusões. Parecia ver silhuetas entre os troncos dos sobreiros e quando olhava melhor desfaziam-se. Ai que sono. Se apanho uma cama, caio nela como uma pedra- resmungava desesperada.

O Torrão tinha ficado para trás e só pedalara 4 quilómetros. Quando vou da minha casa a Setúbal, percorro 50 quilómetros que passam mais rápidos que um fósforo. Ali, a estrada parecia avarenta, agarrada aos quilómetros que demoravam a somar no visor do GPS. Outra ilusão claro. Eu é que devia pedalar mais depressa.
Comecei por ouvir um ruído estranho. Demorei alguns metros a admitir. Parei, desmontei, encostei a Nikita a uma árvore cheia de bolotas no chão, examinei o alfinete cravado no pneu dianteiro.  Respirei fundo. Estava a fazer o que era preciso, e desgraçadamente a bomba não fazia a pressão suficiente;  lembrei-me de ligar para Alcácer, porque a minha média real vinha a baixar desde Sines e quase batia no vermelho. Vais chegar fora do controlo - disseram. Vieram buscar-me.

Só não consigo perceber uma coisa: nos brevets anteriores em que tive de desistir, chorei baba e ranho. Desta vez, nem sinais de desgosto, vestígios de raiva, frustração, etc.. apenas a sensação de um fim de semana fantástico, a pedalar 440 quilómetros, com pessoas tão boa onda.
Obrigada Pedro, Filomena, Rui B. Paulo, e a lista é interminável de tão bons voluntários. E pelo convívio com os bravos randos, os que acabaram e os que vão acabar. Eramos 14 e cerca de metade concluíu o brevet.

A minha cue sheet:


Rando sketch


Regresso a Alcácer do Sal e às memórias da adolescência.
Ainda me lembro destes figos, sobretudo dos picos.
De partida para Sines

 Alcácer do Sal - Torrão. As belas vistas compensam a dureza do sobe e desce, o vento e os sintomas de privação de sono.


"I can’t always win, but I can always learn and grow"
Turn page

Conclusão: I have an unfinished business!

domingo, 4 de maio de 2014

ALQUEVA 400 kms - 3 de maio 2014

"Não ando mesmo nada, estou parada. O meu motor não tem grande potência. O que faço aqui no meio de tantos craques?" - é o pensamento miserável que me ocorre sempre que vejo toda a gente a passar-me à frente e a chegar antes de mim. Vai ser sempre assim e não se fala mais nisso.

Para marcar presença no meu 5º brevet randonneur de 2014, e conseguir chegar ao fim com o mínimo de sofrimento possível, juntei a experiência dos brevets anteriores, carradas de chamois, segui os conselhos úteis do "sleep, eat and drink some days before the ride", bom senso e toneladas de cautela. O brevet só acaba no fim - pensei, quando entrego o cartão amarelo de prova de passagem no último posto de controlo. Até lá a distância conquista-se quilómetro a quilómetro, uma subida depois da outra, vamos deixando para trás vilas, aldeias, pessoas que nos observam e outras que nos saúdam, polícias que perguntam o que fazemos àquelas horas na estrada, cães ferozes e cães fofinhos, paisagens de sonho, episódios caricatos e os lugares onde se come.
A Nikita aos coices, ansiosa por mais uma aventura

Neste brevet contei com um novo adversário: uma alergia da Primavera. Algo inédito, porque tolero praticamente tudo. A garganta inflamou-se, a voz começou a sair rouca e com fanicos, o nariz decidiu pingar, e a pele irritou-se abrindo erupções descontroladas. Com este mal estar físico apresentei-me à meia noite em VFranca Xira para pedalar 400kms. 

Arranjei companhia. O José, um vizinho meu, ainda estreante nos brevets, além de partilhar comigo o transporte, também me acompanhou, apesar do meu fraco andamento. Isto garantiu-me uma presença humana por perto durante a noite, durante o dia, nas etapas mais difíceis, nos quilómetros mais lentos e na contemplação das belas paisagens. A minha gratidão não tem fim. O José vinha bastante animado pois trazia uma bicicleta KTM de estrada, recentemente adquirida, que ia ser estreada num evento de longa distância. Apreensiva, olhei para o quadro (com os tons quentes em laranja que tanto agradam aos Carneiros como eu) e para os pedais de estrada, ambos em carbono, rezando para que corresse tudo bem.

Para que não restassem dúvidas, coloquei logo as cartas na mesa dizendo ao José que não sou nenhuma guerreira da estrada e que pedalo devagar. Ele não pôs obstáculos e mostrou-se compreensivo. 

Os postos de controlo foram: VFXira (zero kms) - Mourão (170 kms) - Moura (200 kms) - Viana do Alentejo (270kms) - VFXira (410kms).

O noite apresentou-se escura, com a Lua numa fase inicial de Quarto Crescente, que mal se notava. No manto noturno limpíssimo, ricamente bordado, as estrelas cintilavam nos lugares remotos e pouco iluminados por onde pedalamos. Senti o calor, o vento fraco e suspirei de alívio. Na verdade, o vento só nos castigou durante a travessia do Alqueva; no regresso, o vento soprou fresco e ameno como uma bênção neste sábado insuportavelmente quente. Um dia quase perfeito.

O nascer do Sol no Alentejo

Teria sido um dia perfeito se logo nos quilómetros iniciais perto de Vendas Novas, o pedal esquerdo Keo do José não se tivesse danificado. Ele nao desistiu, apesar do desconforto da pedalada. Fez o brevet todo com o pé a fugir do pedal.
A Nikita no Alqueva e o emplastro a estragar a foto

Fui conquistando os quilómetros um a um, de forma ponderada, para não deitar as coisas a perder.. Queria uma redenção do falhanço do brevet 300 do Barroso. Parei quando todos pararam. Comi, bebi e descansei sempre que pude. Até ao fim nada está garantido. 


O José e a sua KTM a chegar a Moura

Moura - pormenor

A Nikita em Moura

Último adeus ao Alqueva; o calor intenso e os quilómetros começavam a fazer estragos no corpo e na cara

As vilas que deixamos para trás.

Nunca se sabe o que pode acontecer de repente. Com este pensamento, entrei na reta do Cabo para completar os últimos dez quilómetros. A poucos metros à minha frente, pedalavam o José e o Nuno, um moço com uma bicicleta de BTT que se juntara a nós em Viana do Alentejo. Corria tudo tão bem. O José estava bastante animado e confiante. Eu continuava a pedalar com cautela no meu ram ram. Detesto aquela estrada, com carros e camiões que passam disparados, a velocidades arrepiantes. As bermas estão em mau estado, com cascalho solto, areia e alcatrão irregular. Não vou festejar nada, o brevet só acaba no fim - repetia mentalmente esta ladainha. Quando já tinhamos 405 quilómetros e só faltavam mais cinco para concluir, precisamente no mesmo local onde no ano passado dei o bonk, um bocado de alcatrão saliente, fez saltar a bicicleta do José. Vi as coisas acontecerem à minha frente muito depressa, como num filme: o José praticamente voou da bicicleta e foi cair no meio da estrada. Cada vez mais perto, aproximava-se um enorme camião em grande velocidade; dei um grito e contornei o corpo do José caído na estrada pela esquerda. Ao ver as luzes da minha bicicleta e o ciclista no chão, o camionista travou e foi por um triz que não aconteceu o pior. Fiquei em estado de choque.  O José levantou-se espantosamente, sem um único arranhão. Examinou a bicicleta e aconteceu o que ele temia: o quadro em carbono sofrera uma fratura no top tube.

Após uns instantes, o José decidiu arrancar sem dizer uma palavra e atrás seguimos eu e o Nuno em silêncio, mortificados. 

Foi desta forma estranha que concluímos o brevet, com um episódio nos últimos quilómetros que me fez gelar o sangue.

Um brevet só acaba no fim. Não se deve festejar antes de entregar a prova de passagem no último posto de controlo.

O melhor de tudo: terminamos e voltamos para casa.
Das duas vezes em que participei, consegui concluir, e até ao momento é dos brevets que me dá mais prazer. Uma frase que exprime a razão de gostar tanto desta distância:  "I like the 400K because it packs almost every aspect of randonneuring into a one day package. A 400K invevitably includes several hours of night riding, numerous controls and the need to manage your food and liquids. Additionally, the time limits are generous enough that there is plenty of time for conversations and longish meal breaks with other riders. ", Dan Diehn.

Agradecimentos aos voluntários que fazem "andar" o brevet, alguns dos quais não cheguei a ver. Aos companheiros do caminho: obrigada ao José, que é um santo e me aturou todo o dia (não é facil) e ao Nuno, com um espírito positivo tão contagiante e que nunca demonstrou sinais de cansaço apesar das rodas de btt não facilitarem muito.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

domingo, 27 de abril de 2014

Ainda existem dias perfeitos?



No tempo em que a Primavera era a minha estação preferida, só pensava em vestidos ligeiros e floridos, sandálias de tiras, pulseiras indianas a tilintar nos pulsos e na promessa da luz dos dias mais longos. Isso foi antes de encher o guarda fatos com roupa para pedalar.

Já não tenho uma estação preferida. Aprendi a apreciar os dias frios,  chuvosos, ventosos e a aceitar os dias e as noites bonitas, como oportunidades raras.

Ainda existem dias perfeitos?

Qualquer dia em qualquer mês do ano, transforma-se num dia perfeito quando pedalamos. Errado é esperar pelo dia perfeito.

Fernando Pessoa é que tinha razão:
"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
"


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Do Cristo Rei a Azeitão (e um pouco mais além)

Aproveitando a coincidência da pausa letiva da Páscoa com uma meteorologia simpática deixei a Nikita a "descansar" e dei uso à minha bicicleta de aço. No início foi complicado por sentir-me bastante fraca (agora percebo que nunca devia ter participado no brm300 nas terras do Barroso, pois estava a chocar uma gripe), mas com perseverança, fui somando quilómetros. É essa a ideia: somar horas em cima da bicicleta, mesmo que vá a "pisar ovos". Têm sido uns dias maravilhosos, de pedaladas solitárias, quase um retiro espiritual. Depois das chuvas deste Inverno do nosso descontentamento, o Sol voltou a brilhar e apetece abraçar novos caminhos.
Miradouro do Cristo Rei, Almada
A "Miss Steel" perdeu os seus bonitos guarda lamas, porque estes estavam sempre desalinhados e nunca percebi bem como os colocava direitos. Resultado: os guarda-lamas roçavam tanto nos pneus que deram-me cabo de dois pneus Continental e descobri porque razão furava tanto. A tela do pneu ficou tão roçada que parecia uma peúga gasta. Tenho de pensar numa outra solução para o tempo da chuva e porque habituei-me a pedalar  mantendo a roupa limpa.


Bacalhôa, Azeitão
Casais da Serra
Vai um mergulho?
Tudo isto existe, tudo isto é lindo e eu estive lá


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Riscos



 Numa semana marcada por uma gripe manhosa (quem me mandou andar à chuva?), por um descanso forçado e os rabiscos tinham de  aparecer.


Sempre gostei de desenhos inacabados, de ver figuras a emergirem do papel.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

À procura de um cão cicloturista

No início era uma brincadeira e depois tornou-se coisa séria.
A ideia que ainda era uma sementinha foi germinando até ao contato com canis, grupos de amigos de animais. Ainda não escolhi. Ainda não encontrei  "o cão". Mas é um projeto. Devo ter ficado entusiasmada com as inúmeras imagens que tenho recolhido e também impressionada com o drama do abandono de animais. Como não posso ficar com todos e nem tenho espaço, terá de ser um "patudo" muito especial. Por enquanto é só uma ideia.  Espero no futuro ter um destes companheiros.

As imagens do maravilhoso mundo dos cães cicloturistas são uma inspiração.




Paisagem de sonho











Um ator muito famoso apanhado a passear com o seu cão de estimação



domingo, 6 de abril de 2014

DNF no brevet 300k Baixo Minho e Barroso




Desta vez tenho uma história para contar de como as coisas também podem correr mal. Nos brevets é assim: ou é tudo ou não é nada. Se tem de ser em total autonomia terá de ser e abaixo segue o relato de uma desistência e o seu motivo.


"24 horas depois estou aqui a dar-vos conta que ontem participei pela terceira vez no brm 300km organizado pela Via Veteris.
Não me correu tão bem como no ano passado, mas dentro do azar acho que tive sorte.
As condições meteorológicas eram duras, com chuva e nevoeiro durante o dia todo. Por essa razao ia bastante prevenida com mudas de roupa e essa foi a parte que correu bem.

Aqui, já ia na posição de Lanterne Rouge

Ultrapassados os 26 kms iniciais até Azurara, fiquei sozinha. Mesmo assim, fui passando os postos de controlo com alguma segurança o que me deixou animada. No Arco do Baúlhe, hesitei se almoçava ou não e como ouvira dizer que era preferivel almoçar na Carreira da Lebre para não subir de "barriga cheia" foi o que fiz. A dona da Padaria dos pães gigantes, lembrava-se de mim do ano passado e arranjou-me um espaço entre sacas de farinha e garrafas de detergente onde troquei a roupa molhada por outra seca e quente. Ganhei vida nova. "Não tem medo de pedalar sozinha?" - perguntou-me quando parti. Não me lembro bem do que respondi, pois estava a controlar o tempo.
 
O tal colete que irritou uma vaca barrosã (uma selfie para estragar a bela paisagem)

Segui o caminho que ja conheço muito bem e é sempre a subir; quando já tinha 130kms perto do lugar da Texugueira aconteceu-me uma coisa inédita: uma vaca enorme, daquelas castanhas com um impressionante ornamento na cabeça, que andava à solta na estrada  aproximou-se de mim. Fiquei inquieta, tentei desmontar e como os meus pedais de encaixe são novos, o sapato demorou a desencaixar a tempo e eu caí. A bicicleta com a queda ficou com problemas mecânicos e fazia uma chiadeira esquisita. Passou uma senhora de carro que me disse que a vaca estava irritada por causa do colete laranja vivo. A vaca não arredava do caminho e ficou mesmo no meio da estrada imóvel a olhar-me fixamente com as narinas a abrirem e fecharem de forma inquietante. Por vezes virava-me as costas indiferente e quando eu mexia virava-se de novo para mim. Passou um senhor numa carrinha de caixa aberta que me disse que a vaca estava irritada  e podia investir contra mim a qualquer momento. E o que ele fez foi ajudar passando-me de carro aquele bocado. Mais à frente, em segurança, voltei a montar a bicicleta e pedalei cautelosamente, pois estava a ouvir um barulho estranho na roda traseira. Quando cheguei à Carreira da Lebre comuniquei a minha intenção de desistir.
Fiquei bastante triste com o sucedido e agradeço a todos a vossa compreensão. Não sei como procederiam neste tipo de situação, mas não me ocorreu mais nada e não havia nenhum caminho alternativo para me desviar do animal. Vou pensar duas vezes antes de comer bife de vaca barrosã.
É esta a minha crónica."
Nota 1: os brevets são em total auto suficiência e não é permitida ajuda exterior, carros de apoio, por ex. Esta foi a razão de desistência. Pensei que não havia outra hipótese senão aceitar ajuda exterior, uma vez que ia sozinha, pois não sei prever o comportamento da fauna bovina da região (confesso que tive imenso medo daquela enorme massa de carne à minha frente que parecia um touro) e ao fazê-lo, automaticamente assinei a minha retirada do brevet.

Foi um pouco depois desta curva que se deu o encontro bovino.
Nota 2: Se estou arrependida de ter ido? das despesas de viagem, alojamento e de alimentação? Obviamente que não. A serra do Barroso tem um sortilégio especial e não consegui resistir ao apelo rando de lá voltar mesmo num dia impróprio para andar de bicicleta em segurança.

Nota 3:  If you make friends with yourself you will never be alone. (Maxwell Maltz)

Nota 4: Serra do Barroso em Boticas - o motivo que me faz vir pedalar a este lugar:

"... a oitava maior elevação de Portugal Continental, atingindo 1279 metros de altitude máxima, a Serra do Barroso é uma formação que faz parte do Maciço Antigo, a maior e mais antiga unidade morfoestrutural da Península Ibérica com mais de 250 milhões de anos. Daí que nela predominem o xisto e o granito, ainda que nas suas encostas cresçam pastagens que alimentam o gado lanígero e o bem conhecido gado barrosão. Delimitada pelos rios Tâmega e Cávado, do seu ponto mais alto – os “Cornos do Barroso”, dois coutos que se assemelham e esta característica bovina – avistam-se as serras do Larouco, Cabreira, Gerês e Marão. As variações de altura desta serra proporcionam uma diversidade de habitats que, por sua vez, favorecem o aparecimento de grande variedade de cogumelos e, a nível da fauna, espécies como o javali ou a lebre, o que tornam esta região especialmente propícia à caça. De salientar as aldeias típicas de Alturas do Barroso e Covas do Barros, com os seus telhados de colmo, o Castro do Lesenho e as nascentes de Carvalhelhos."




Nota 5: A risada foi geral quando contei este episódio. As vacas barrosãs são muito mansas, disse trocista, uma colega do trabalho com o sotaque do Alto-Douro. Não há relatos de ataques destes animais. Antes pelo contrário, elas é que têm medo dos humanos. Aos teus olhos era uma tonelada contra cinquenta quilos, mas para a vaca, tu é que parecias um monstro ameaçador ... hehehe. Paródia da vida.