Desta vez tenho uma história para contar de como as coisas também podem correr mal. Nos brevets é assim: ou é tudo ou não é nada. Se tem de ser em total autonomia terá de ser e abaixo segue o relato de uma desistência e o seu motivo.
"24 horas depois estou aqui a dar-vos conta que ontem participei pela terceira vez no brm 300km organizado pela Via Veteris.
Não me correu tão bem como no ano passado, mas dentro do azar acho que tive sorte.
As condições meteorológicas eram duras, com chuva e nevoeiro durante o dia todo. Por essa razao ia bastante prevenida com mudas de roupa e essa foi a parte que correu bem.
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| Aqui, já ia na posição de Lanterne Rouge |
Ultrapassados os 26 kms iniciais até Azurara, fiquei sozinha. Mesmo assim, fui passando os postos de controlo com alguma segurança o que me deixou animada. No Arco do Baúlhe, hesitei se almoçava ou não e como ouvira dizer que era preferivel almoçar na Carreira da Lebre para não subir de "barriga cheia" foi o que fiz. A dona da Padaria dos pães gigantes, lembrava-se de mim do ano passado e arranjou-me um espaço entre sacas de farinha e garrafas de detergente onde troquei a roupa molhada por outra seca e quente. Ganhei vida nova. "Não tem medo de pedalar sozinha?" - perguntou-me quando parti. Não me lembro bem do que respondi, pois estava a controlar o tempo.
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| O tal colete que irritou uma vaca barrosã (uma selfie para estragar a bela paisagem) |
Segui o caminho que ja conheço muito bem e é sempre a subir; quando já tinha 130kms perto do lugar da Texugueira aconteceu-me uma coisa inédita: uma vaca enorme, daquelas castanhas com um impressionante ornamento na cabeça, que andava à solta na estrada aproximou-se de mim. Fiquei inquieta, tentei desmontar e como os meus pedais de encaixe são novos, o sapato demorou a desencaixar a tempo e eu caí. A bicicleta com a queda ficou com problemas mecânicos e fazia uma chiadeira esquisita. Passou uma senhora de carro que me disse que a vaca estava irritada por causa do colete laranja vivo. A vaca não arredava do caminho e ficou mesmo no meio da estrada imóvel a olhar-me fixamente com as narinas a abrirem e fecharem de forma inquietante. Por vezes virava-me as costas indiferente e quando eu mexia virava-se de novo para mim. Passou um senhor numa carrinha de caixa aberta que me disse que a vaca estava irritada e podia investir contra mim a qualquer momento. E o que ele fez foi ajudar passando-me de carro aquele bocado. Mais à frente, em segurança, voltei a montar a bicicleta e pedalei cautelosamente, pois estava a ouvir um barulho estranho na roda traseira. Quando cheguei à Carreira da Lebre comuniquei a minha intenção de desistir.
Fiquei bastante triste com o sucedido e agradeço a todos a vossa compreensão. Não sei como procederiam neste tipo de situação, mas não me ocorreu mais nada e não havia nenhum caminho alternativo para me desviar do animal. Vou pensar duas vezes antes de comer bife de vaca barrosã.
É esta a minha crónica."
Nota 1: os brevets são em total auto suficiência e não é permitida ajuda exterior, carros de apoio, por ex. Esta foi a razão de desistência. Pensei que não havia outra hipótese senão aceitar ajuda exterior, uma vez que ia sozinha, pois não sei prever o comportamento da fauna bovina da região (confesso que tive imenso medo daquela enorme massa de carne à minha frente que parecia um touro) e ao fazê-lo, automaticamente assinei a minha retirada do brevet.
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| Foi um pouco depois desta curva que se deu o encontro bovino. |
Nota 3: If you make friends with yourself you will never be alone. (Maxwell Maltz)
Nota 4: Serra do Barroso em Boticas - o motivo que me faz vir pedalar a este lugar:
sua
vez, favorecem o aparecimento de grande variedade de cogumelos e, a
nível da fauna, espécies como o javali ou a lebre, o que tornam esta
região especialmente propícia à caça. De salientar as aldeias típicas de
Alturas do Barroso e Covas do Barros, com os seus telhados de colmo, o
Castro do Lesenho e as nascentes de Carvalhelhos."
Nota 5: A risada foi geral quando contei este episódio. As vacas barrosãs são muito mansas, disse trocista, uma colega do trabalho com o sotaque do Alto-Douro. Não há relatos de ataques destes animais. Antes pelo contrário, elas é que têm medo dos humanos. Aos teus olhos era uma tonelada contra cinquenta quilos, mas para a vaca, tu é que parecias um monstro ameaçador ... hehehe. Paródia da vida.
Nota 5: A risada foi geral quando contei este episódio. As vacas barrosãs são muito mansas, disse trocista, uma colega do trabalho com o sotaque do Alto-Douro. Não há relatos de ataques destes animais. Antes pelo contrário, elas é que têm medo dos humanos. Aos teus olhos era uma tonelada contra cinquenta quilos, mas para a vaca, tu é que parecias um monstro ameaçador ... hehehe. Paródia da vida.





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