“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 27 de abril de 2014

Ainda existem dias perfeitos?



No tempo em que a Primavera era a minha estação preferida, só pensava em vestidos ligeiros e floridos, sandálias de tiras, pulseiras indianas a tilintar nos pulsos e na promessa da luz dos dias mais longos. Isso foi antes de encher o guarda fatos com roupa para pedalar.

Já não tenho uma estação preferida. Aprendi a apreciar os dias frios,  chuvosos, ventosos e a aceitar os dias e as noites bonitas, como oportunidades raras.

Ainda existem dias perfeitos?

Qualquer dia em qualquer mês do ano, transforma-se num dia perfeito quando pedalamos. Errado é esperar pelo dia perfeito.

Fernando Pessoa é que tinha razão:
"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.
"


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Do Cristo Rei a Azeitão (e um pouco mais além)

Aproveitando a coincidência da pausa letiva da Páscoa com uma meteorologia simpática deixei a Nikita a "descansar" e dei uso à minha bicicleta de aço. No início foi complicado por sentir-me bastante fraca (agora percebo que nunca devia ter participado no brm300 nas terras do Barroso, pois estava a chocar uma gripe), mas com perseverança, fui somando quilómetros. É essa a ideia: somar horas em cima da bicicleta, mesmo que vá a "pisar ovos". Têm sido uns dias maravilhosos, de pedaladas solitárias, quase um retiro espiritual. Depois das chuvas deste Inverno do nosso descontentamento, o Sol voltou a brilhar e apetece abraçar novos caminhos.
Miradouro do Cristo Rei, Almada
A "Miss Steel" perdeu os seus bonitos guarda lamas, porque estes estavam sempre desalinhados e nunca percebi bem como os colocava direitos. Resultado: os guarda-lamas roçavam tanto nos pneus que deram-me cabo de dois pneus Continental e descobri porque razão furava tanto. A tela do pneu ficou tão roçada que parecia uma peúga gasta. Tenho de pensar numa outra solução para o tempo da chuva e porque habituei-me a pedalar  mantendo a roupa limpa.


Bacalhôa, Azeitão
Casais da Serra
Vai um mergulho?
Tudo isto existe, tudo isto é lindo e eu estive lá


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Riscos



 Numa semana marcada por uma gripe manhosa (quem me mandou andar à chuva?), por um descanso forçado e os rabiscos tinham de  aparecer.


Sempre gostei de desenhos inacabados, de ver figuras a emergirem do papel.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

À procura de um cão cicloturista

No início era uma brincadeira e depois tornou-se coisa séria.
A ideia que ainda era uma sementinha foi germinando até ao contato com canis, grupos de amigos de animais. Ainda não escolhi. Ainda não encontrei  "o cão". Mas é um projeto. Devo ter ficado entusiasmada com as inúmeras imagens que tenho recolhido e também impressionada com o drama do abandono de animais. Como não posso ficar com todos e nem tenho espaço, terá de ser um "patudo" muito especial. Por enquanto é só uma ideia.  Espero no futuro ter um destes companheiros.

As imagens do maravilhoso mundo dos cães cicloturistas são uma inspiração.




Paisagem de sonho











Um ator muito famoso apanhado a passear com o seu cão de estimação



domingo, 6 de abril de 2014

DNF no brevet 300k Baixo Minho e Barroso




Desta vez tenho uma história para contar de como as coisas também podem correr mal. Nos brevets é assim: ou é tudo ou não é nada. Se tem de ser em total autonomia terá de ser e abaixo segue o relato de uma desistência e o seu motivo.


"24 horas depois estou aqui a dar-vos conta que ontem participei pela terceira vez no brm 300km organizado pela Via Veteris.
Não me correu tão bem como no ano passado, mas dentro do azar acho que tive sorte.
As condições meteorológicas eram duras, com chuva e nevoeiro durante o dia todo. Por essa razao ia bastante prevenida com mudas de roupa e essa foi a parte que correu bem.

Aqui, já ia na posição de Lanterne Rouge

Ultrapassados os 26 kms iniciais até Azurara, fiquei sozinha. Mesmo assim, fui passando os postos de controlo com alguma segurança o que me deixou animada. No Arco do Baúlhe, hesitei se almoçava ou não e como ouvira dizer que era preferivel almoçar na Carreira da Lebre para não subir de "barriga cheia" foi o que fiz. A dona da Padaria dos pães gigantes, lembrava-se de mim do ano passado e arranjou-me um espaço entre sacas de farinha e garrafas de detergente onde troquei a roupa molhada por outra seca e quente. Ganhei vida nova. "Não tem medo de pedalar sozinha?" - perguntou-me quando parti. Não me lembro bem do que respondi, pois estava a controlar o tempo.
 
O tal colete que irritou uma vaca barrosã (uma selfie para estragar a bela paisagem)

Segui o caminho que ja conheço muito bem e é sempre a subir; quando já tinha 130kms perto do lugar da Texugueira aconteceu-me uma coisa inédita: uma vaca enorme, daquelas castanhas com um impressionante ornamento na cabeça, que andava à solta na estrada  aproximou-se de mim. Fiquei inquieta, tentei desmontar e como os meus pedais de encaixe são novos, o sapato demorou a desencaixar a tempo e eu caí. A bicicleta com a queda ficou com problemas mecânicos e fazia uma chiadeira esquisita. Passou uma senhora de carro que me disse que a vaca estava irritada por causa do colete laranja vivo. A vaca não arredava do caminho e ficou mesmo no meio da estrada imóvel a olhar-me fixamente com as narinas a abrirem e fecharem de forma inquietante. Por vezes virava-me as costas indiferente e quando eu mexia virava-se de novo para mim. Passou um senhor numa carrinha de caixa aberta que me disse que a vaca estava irritada  e podia investir contra mim a qualquer momento. E o que ele fez foi ajudar passando-me de carro aquele bocado. Mais à frente, em segurança, voltei a montar a bicicleta e pedalei cautelosamente, pois estava a ouvir um barulho estranho na roda traseira. Quando cheguei à Carreira da Lebre comuniquei a minha intenção de desistir.
Fiquei bastante triste com o sucedido e agradeço a todos a vossa compreensão. Não sei como procederiam neste tipo de situação, mas não me ocorreu mais nada e não havia nenhum caminho alternativo para me desviar do animal. Vou pensar duas vezes antes de comer bife de vaca barrosã.
É esta a minha crónica."
Nota 1: os brevets são em total auto suficiência e não é permitida ajuda exterior, carros de apoio, por ex. Esta foi a razão de desistência. Pensei que não havia outra hipótese senão aceitar ajuda exterior, uma vez que ia sozinha, pois não sei prever o comportamento da fauna bovina da região (confesso que tive imenso medo daquela enorme massa de carne à minha frente que parecia um touro) e ao fazê-lo, automaticamente assinei a minha retirada do brevet.

Foi um pouco depois desta curva que se deu o encontro bovino.
Nota 2: Se estou arrependida de ter ido? das despesas de viagem, alojamento e de alimentação? Obviamente que não. A serra do Barroso tem um sortilégio especial e não consegui resistir ao apelo rando de lá voltar mesmo num dia impróprio para andar de bicicleta em segurança.

Nota 3:  If you make friends with yourself you will never be alone. (Maxwell Maltz)

Nota 4: Serra do Barroso em Boticas - o motivo que me faz vir pedalar a este lugar:

"... a oitava maior elevação de Portugal Continental, atingindo 1279 metros de altitude máxima, a Serra do Barroso é uma formação que faz parte do Maciço Antigo, a maior e mais antiga unidade morfoestrutural da Península Ibérica com mais de 250 milhões de anos. Daí que nela predominem o xisto e o granito, ainda que nas suas encostas cresçam pastagens que alimentam o gado lanígero e o bem conhecido gado barrosão. Delimitada pelos rios Tâmega e Cávado, do seu ponto mais alto – os “Cornos do Barroso”, dois coutos que se assemelham e esta característica bovina – avistam-se as serras do Larouco, Cabreira, Gerês e Marão. As variações de altura desta serra proporcionam uma diversidade de habitats que, por sua vez, favorecem o aparecimento de grande variedade de cogumelos e, a nível da fauna, espécies como o javali ou a lebre, o que tornam esta região especialmente propícia à caça. De salientar as aldeias típicas de Alturas do Barroso e Covas do Barros, com os seus telhados de colmo, o Castro do Lesenho e as nascentes de Carvalhelhos."




Nota 5: A risada foi geral quando contei este episódio. As vacas barrosãs são muito mansas, disse trocista, uma colega do trabalho com o sotaque do Alto-Douro. Não há relatos de ataques destes animais. Antes pelo contrário, elas é que têm medo dos humanos. Aos teus olhos era uma tonelada contra cinquenta quilos, mas para a vaca, tu é que parecias um monstro ameaçador ... hehehe. Paródia da vida.