“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Brm 300 Baixo Minho e Barroso


Mas o que é isto?- exclamei, incrédula, com as previsões do http://portuguese.wunderground.com/. Um brevet com bom tempo! não é natural!
O que é natural e fica bem é passarmos um dia a lutar contra os elementos impiedosos: vento de rajada, chuva diluviana, granizo, frio e alertas amarelos, laranjas e vermelhos da meteorologia. Num brevet que se preze, é natural carregarmos a bicicleta com impermeaveis, mudas de roupa, vestirmos roupa térmica, passa-montanhas, luvas wind stopper e tralha, imensa tralha.
Esfreguei as mãos de satisfação, ao repetir os mesmos passos que dei no BRM 200kms do Alto Minho.
A ansiedade do costume a estudar o road book como uma aluna aplicada que vai fazer exame de condução. Virar à direita, não virar à esquerda, seguir em frente, cuidado com a descida forte, tudo mas tudinho memorizado e analisado ao pormenor das cores das rotundas, no Google Earth. Desta vez não ia permitir desvarios como desvios de dez quilómetros por caminhos errados, como no ano passado. Gravei o percurso no GPS e carreguei três pares de pilhas energizer.
Ja estou bastante familiarizada com a Nikita, mas ao chegar a Esposende, fui visitar o sr Paiva da Espo Vespinha, para um olhar profissional. Deixou-me a bicicleta fina e ainda verificou a pressão dos pneus.
Sabado, 4 de maio dei um salto da cama quando vi que o relogio marcava cinco horas. Os randonneurs saíam daí a meia hora. Pânico! Nem comi as papas Cerelac, e vestindo-me à pressa fui a correr para a Delegação da Cruz Vermelha de Marinhas. Felizmente, na véspera ja deixara a bicicleta toda montada: sandes de carne assada do jantar, bananas e a camelbak atestada.
Depois das formalidades, partimos juntos e em ritmo tranquilo a confraternizar. O grupo era pequeno, compacto e com exceção do Marcelo um randonneur do outro lado do Atlântico, ja nos conheciamos. Até Azurara, seguimos sempre juntos.
Depois fomos criando grupos, mas durante muitos quilómetros senti a presença dos outros randonneurs, uns atrás, outros à frente, conversando, rindo, aconselhando, contando novidades...mas nunca sozinha! Uma experiência nova! Este ano, tem sido raríssimo pedalar a todalidade de um brevet, completamente sozinha; apesar de não ter um grupo, um/a parceiro/a como os outros, acabo sempre por encontrar alguem que não se importa de seguir o meu ritmo, o que é uma sorte!
Aos primeiros raios do Sol atravessamos Esposende, Póvoa do Varzim, Vila do Conde, Trofa, Lordelo,Vizela, Fafe, Lameira. Isto foi o aquecimento!
Desenhei uma tabela com todos os postos de controlo, as horas de fecho e analisando honestamente as minhas limitações físicas, decidi que se não conseguisse chegar ao Arco de Baúlhe antes do meio dia, que nunca chegaria a tempo à Carreira da Lebre. Com as subidas, o ritmo baixou e o calor era cada vez mais intenso.
Na subida das Lameiras, passou por mim um grupo animado de caminhantes (rapazes e raparigas) que desciam. Saudaram-me. A minha companhia a poucos metros de distância, eram o Fernando e o Jacinto (dois randonneurs do Porto). Os outros andavam por perto.
Conforme o previsto, alcancei a Padaria Central do Arco de Baúlhe, no tempo planificado. Fiquei mais tranquila!
Para quem não tomara o pequeno-almoço e pedalava movida pelo jantar de esparguete e carne assada da noite anterior, não estava a correr nada mal. Na fábrica dos pães gigantes, não vi o senhor que me atendeu no ano passado e com quem fiquei uma boa meia hora na conversa. Estava uma senhora igualmente simpatica admirada de ver uma mulher entre os randonneurs.
Não ia subir a serra do Barroso de barriga vazia...precisava urgentemente de calorias! Uma sopa e...algo mais! Antes de Cabeceiras de Basto, eu e o Jacinto, passamos por um estabelecimento e vendo umas bicicletas familiares estacionadas, tambem paramos. Era uma casa de comida, espaçosa, acolhedora, própria para refeições prolongadas e conversas sem fim. Nós não tinhamos assim tanto tempo.
Acho que nestes brevets, como mais num dia, que durante uma semana da minha vida normal! E coisas que é raro comer! Carne! argh! eu sou mais peixinho, mas tem de ser, senão não puxo a carroça. E bolos! só como bolos em dias de festa...mas devo ter batido o meu recorde com dois bolos de arroz e um mega croissant. Ficou tudo no alcatrão.
Iniciamos a temida ascensão. Cabeceiras de Basto-Torrinheiras! uma subida sem descanso, com pontos de forte inclinação. Eu e o Jacinto deixamos de ver o Fernando. Ouvi o Jacinto comentar: "estou a pedalar a 6km/h. Quando passei aqui de carro, não parecia assim tão difícil".
Para me abstrair da dureza da subida, ia comparando o caminho com as recordações do ano passado. Estava em Trás os Montes! Longe de tudo!


Desta vez, a estrada parecia outra; a Primavera  em festa, alegre, com uma exuberância de flores e de cores, que até onde os nossos olhos alcançavam, estendia-se pelas montanhas circundantes. Tanta montanha.  E novamente cascatas! Da montanha brotava água generosamente! Seria potável? A estrada antes solitária, tinha mais trânsito, talvez devido ao convite do bom tempo. Não parecia a mesma por onde eu passara no ano passado, na mais absoluta solidão, assustada com a ameaça das nuvens negras no horizonte e o som da trovoada.

- Quero lá saber se estou a pedalar a 5, 6, 7km/h! Ai que vontade louca de desmontar da bicicleta! Será que aguento isto? vamos lá, só mais uma curva! e agora é mais outra que a seguir vem uma descida! e a descida nunca mais aparecia! Nunca mais me apanham aqui nesta subida! - resmungava e depois lembrava-me de no ano passado ter prometido o mesmo e agora estava ali de volta.


A certa altura, vi um randonneur a caminhar, com a bicicleta à mão. Ao vê-lo, percebi que tinha concluído a  subida e estava bastante perto do Salto. No ano passado desmontei naquele mesmo lugar e desta vez tinha ido até ao fim sem desistir. Afinal, estava a safar-me razoavelmente!  O randonneur era o Marcelo, numa fase de grande desgaste. Voltou a montar a bicicleta até ao Salto, que é um planalto. Para o distrair, comecei a conversar com ele: "sabe? a minha cunhada também é brasileira, da Goianésia do Pará. Conhece?"; mas o Marcelo estava preocupado e perguntou-me se ainda havia mais subidas como aquela. Respondi que até à Carreira da Lebre ainda tinhamos que subir mais um bocado, mas com vários pontos de descanso. Ele decidiu parar num posto de abastecimento para comer e nunca mais o vimos. Nem o Fernando. Ouvi o Jacinto dizer que tinha esperança de o ver aparecer a qualquer momento... durante todo o resto do caminho. "Ele ha-de aparecer. Apanha uma descida e alcança-nos", mas nada do Fernando.
O José Ferreira, um dos organizadores locais, desta vez não pedalou mas surgia inesperadamente para tirar-nos fotos. Força! disse ele, da última vez que o vimos.
O calor era insuportável. Sentia a pele da cara a arder, sob a abundante camada de protetor solar fator 50! "Tomara que chova! tomara que chova! três dias sem parar" - cantarolava entredentes.
A segunda parte da subida, foi mais tranquila. Que contraste com as recordações do ano passado, a pedalar debaixo de uma chuva torrencial, enquanto as pedras de granizo metralhavam o meu capacete!
Ao ver a última rampa, tão familiar que estava aqui na memória,gravada a fogo, não queria acreditar que fosse tão facil. No ano passado cheguei aquele lugar, miseravelmente encharcada, gelada até ao tutano, mal dobrava as pernas e subi a rampa com a bicicleta à mão, inspirando pena a um condutor que passava. Lá estava a Carreira da Lebre! Um dia de Sol esplêndido, florido!
Surgiram o Gilberto e o Manuel Miranda que acabavam de almoçar no hotel escolhido como posto de controle. Um banquete! havia tanta comida que partilharam conosco. Não fiz cerimónias! de uma taça, o arroz de feijão deslizou goela abaixo à colherada. Só então é que reparei que estava sentada numa mesa requintada, com o capacete na cabeça! "Não faz mal! chama-se a isso, comer em segurança"- riu-se o Gilberto, enquanto eu pedia desculpas pela minha falta de maneiras.


Superada a barreira psicológica da Carreira da Lebre, e com cerca de 168kms, metade do brevet ja realizado, só queria desfrutar da beleza da região. Barragem do Alto do Rabagão, Venda Nova, Grande Lago da Caniçada...que tanto desejei visitar, materializavam-se à minha frente. Lembro-me de travar repentinamente ao ver a silhueta de um cavalo à solta, atravessar a estrada.
A noite caía rapidamente e sem esperar o por do sol, acendemos as luzes. Ainda faltava um obstáculo a superar que eu receava há muito. O Manuel Miranda ja me preparara para uma descida com uma forte inclinação para atravessar o rio Cávado, mas ai Jesus! não imaginava que fosse assim tão inclinada! E ainda bem, pois se soubesse tinha desmontado. Para piorar esquecera-me de ligar a bateria ao farol Cree XML e a luz da Cateye era insuficiente. No quilómetro 241, mergulhei na descida, gritando: "Jacinto! não se afaste muito de mim, tenho de ver bem o caminho"- ele levava umas luzes mais potentes, mas quem ia na frente era eu, avisando quando o piso estava mais irregular. Ultrapassado aquele emocionante downhill com muito ai, ai que estou aqui estou no chão, e antes de atravessar a ponte, liguei as luzes mais fortes; continuamos até Santa Maria do Bouro.

Estava a arrefecer, mas prevenidos ja tinhamos vestido os casacos e corta-ventos. Hesitei em enfiar os pernitos! "Que se lixe! agora não há tempo!" - pensei.
Que pena, mas que grande pena de não ter ficado mais tempo na Pousada de Santa Maria do Bouro. Tanta magia no silêncio daquelas paredes de pedra. Era o último posto de controlo. Por precaução vesti o arnês refletor. O Jacinto que se debatia com um problema mecânico da sua Branquinha, conseguiu dar um jeito e partimos.
O cansaço já era evidente! Eram vinte e duas horas e não podíamos cometer erros.
Porém, a partir de Amares (atravessamos uma rua principal pavimentada, com paralelos como se diz no Norte) o trânsito tornou-se infernal. Os condutores pareciam animados de um estranho receio que o fim de semana acabasse depressa e voavam pela estrada, BMW's, Audi's, Mercedes e mais uns motores alemães de elevada potência. Ficou comprovada a eficâcia das luzes, do colete, dos refletores nos tornozelos; o Jacinto brilhava como um pirilampo na estrada. Mas que eles se desviavam, lá isso é verdade! Ouvi muitos carros a buzinarem-nos mas eram mais os que nos saudavam e deram-nos prioridade nas rotundas e cruzamentos. Ainda assim, sempre com cautela.Também ouvi algumas propostas: "Oláaaaa! Queres boleia?"- gritaram de um carro superlotado de gente e de bebidas inflamáveis. No estado em que já ia, não era má ideia. Continuava a lutar para manter os reflexos.
As dores nos braços, nas costas e nos joelhos estavam sob controlo, porque estava a pedalar dentro dos meus limites. Felizmente, o meu companheiro de viagem, o Jacinto não parecia interessado em ganhar o prémio da montanha e pedalava num andamento, parecido com o meu. Pé ligeiro, poucas paragens, cabeça fria e nada de loucuras.
Barcelos! 300kms!
Já faltava muito pouco! É nesta fase, que a vespa pica. Só mais vinte quilómetros, mais ou menos.
Era domingo, dia 5 de maio; o meu pensamento voava: - daí a umas horas, às dez e quarenta e cinco, ia viajar no autocarro Expresso para Lisboa; tinha de entregar a lembrança do Dia da Mãe que comprara em Esposende; em casa, esperava-me uma pilha de testes para corrigir.
O Manuel Miranda dissera que daí em diante era só seguir as indicações "Esposende" e, assim fizemos.
Não esperava apanhar mais subidas, mas nesta altura, qualquer inclinação da estrada parecia penosa.
Estrada Nacional 13! Olha a Estalagem Zende! Animadíssima com um jantar dançante!
Faltavam só dois, dois quilómetros.
Cruz Vermelha de Marinhas! Ao longe, brilhavam as luzes  e as roupas dos randonneurs que nos esperavam.
320kms, mais de 5000m de acumulado e quase 20 horas a pedalar. Um doce sabor a desforra! Afinal não há tarefas sobre humanas, basta querer muito!
Ano 2013: dois brevets 200kms e dois brevets de 300kms concluídos. Não contem a ninguém mas eu aprendi a  andar de bicicleta em agosto de 2009.


"Quando algum desafio lhe bater à porta convide-o para entrar. Ele pode trazer um vendaval e deixar-lhe a casa de pernas para o ar, mas poderá também pôr a descoberto coisas que achava ter perdido."

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