“A perfeição é alcançada a passos lentos; é necessária a mão do tempo.” (Voltaire)

domingo, 26 de janeiro de 2014

L'Antique BRM200kms



Às vinte e duas e quinze de sábado, 25 de janeiro, eu estava na estação de comboios de Vila Franca de Xira à espera do comboio das vinte e três e quatro. A estação àquela hora tem um aspeto sinistro e desolado. Estava completamente sozinha, ou quase. No elevador da estação um rapaz com aspeto inquietante entretia-se a subir e a descer. Vinte minutos depois, apareceram duas pessoas: um rapaz muito louro com óculos de massa, lábios preenchidos com botox e uma rapariga africana. Falavam do mesmo que eu pensava. Que a estação era muito perigosa e isolada nos fins de semana à noite. Juntei-me a eles e ficaram contentes por sermos um trio. Iam para Lisboa para o Bairro Alto, ter com amigos. O rapaz tinha a mala cheia de pinceis de maquilhagem, base para disfarçar as borbulhas e tinha um tique: estava sempre a espalhar creme nas mãos, muito secas, explicou ele. A rapariga ia ter com amigos para uma festa de anos. Eu, disse que só queria chegar a casa, pois tinha passado o dia a pedalar cerca de 200 e tal quilometros. O cigarro, quase caía dos lábios do rapaz louro e os dois ficaram interessados em saber por onde tinha andado neste sábado. Afinal, estava frio, vento, e a única forma de passarmos melhor o tempo era a conversar. Os três, eu e eles estavamos aliviados por termos companhia de viagem até Lisboa. Eles tinham medo de estar sozinhos numa carruagem quase deserta, num sábado à noite. Uma vez fui assaltado, confidenciou o rapaz louro, enquanto eu apreciava invejosa as suas lindas sombracelhas cuidadosamente arranjadas. É curioso como por vezes é tão facil conversar com pessoas com um estilo de vida que está a anos luz da nossa. Foi a segunda vez neste sábado, que me juntei a um grupo por sentir que juntos, seríamos mais fortes.

Posto de Controlo 1 - Saída de Vila Franca de Xira
Éramos cinco. Pedalamos juntos, quase até aos últimos quilómetros do posto de controlo de chegada. Foi a primeira vez que consegui pedalar num grupo tão "numeroso". Normalmente, mais de três pessoas já é uma multidão para mim e o costume é ir sozinha. Desta vez, talvez por gostar da companhia, achei que seria melhor, para o bem e para o mal acompanhar aqueles quatros moços no L'Antique. Pedalar desta forma exige um compromisso invisível e conseguir mantê-lo até ao fim. Apesar de termos sido os últimos a chegar, devido a muitos fatores, pois todos esperavam uns pelos outros, nem dei pela passagem dos quilómetros. Tive muita sorte neste sábado.
Uma estrada secundária (quase) sem carros.
Estava vento, chuviscava, mas a temperatura era bastante amena. Levei 4 bananas, 4 sandes de queijo e presunto, meio pacote de bolacha maria e bebida na camelbak. Como sempre, a parte mais difícil foi sair de casa às cinco da manhã, com apenas quatro horas de sono. Eu não tenho vergonha de dizer que durmo em média cerca de sete a oito horas de sono profundo. Estavam lá os habituées destes eventos, alguns estreantes e senti a falta dos animados amigos do Norte, que dão aos brevets um colorido especial.
Este brevet que passa por estradas antigas, em mau estado, tem uma navegação difícil e exige bastante concentração.
Senti-me sempre bem e sem queixas especiais no corpo. A Nikita de regresso às viagens longas, foi a heroína do dia. No ano passado, com a minha anterior bicicleta, o meu corpo sofreu e berrou naquele empedrado, nas estradas esburacadas e irregulares. Este ano a Nikita, prestou-me um grande serviço, mostrando porque é tão especial. O empedrado parecia liso e ultrapassei os obstáculos sem dores no corpo. 
Depois da chuvinha molha-parvos, veio o vento arreliante e senti muitas vezes que a bicicleta fugia. Foi o único senão. Com a Charge isso é raro acontecer.
Não me posso queixar muito pois este passeio de 200 quilómetros foi mesmo isso, um passeio.
Ponte do Cação

As paisagens do Ribatejo, que apesar de não serem as minhas favoritas, têm uma magia própria nestes dias. Depois de Santarém, a longa estrada para Vale Figueira, sempre chicoteados pelo vento, oferece a oportunidade de arrumar os pensamentos e meditar sobre o sentido da vida...e a vida nestes lugares tem um ritmo instalado há séculos. Deixamos para trás pessoas que olhavam-nos com curiosidade e correspondiam ao nosso cumprimento. Atenção ao próximo ponto de "navegação difícil", virar à direita para a Ponte do Cação. Perguntei a uma velhinha sentada num banco se sabia onde ficava a ponte. Disse-me que era surda e não ouvia bem.
Descobrimos a bela ponte. Respondemos a uma questão e registamos a hora de passagem. Continuamos a navegar.
Seguimos depois em busca da Quinta da Cardiga, que parou no tempo. Não resisti a tirar uma foto encostando a Nikita à porta do palacete.
Quinta da Cardiga
Dei um salto. Do interior, vinha um barulho de correntes a arrastarem-se e um cão rosnou zangado com a invasão. 
Uma dentada na sandes, antes de me meter numa estrada de terra batida. Quase quase mountain bike.
A bela Constância aguardava-nos, mas aqueles curtos quilómetros foram os piores do dia, com o vento a redobrar de intensidade. Se eu soubesse fotografar em andamento, tirava fotos às árvores para mostrar como os ramos se curvavam. 
Em Constância
Tancos e a seguir... Constância. Fomos descobrir a Esplanada Pezinhos no Rio. Ali o vento não chega e o Sol convida-nos a lanchar.
Na Esplanada Pézinhos no Rio, Constância

Ninguem se fez rogado, apesar do cuidado com as horas, porque tinhamos de chegar a tempo nos três postos de controlo seguintes.

Constância - Posto de Controlo
A surpresa agradável, foi que dali para a frente o vento deixou de castigar-nos, durante muitos quilómetros.
Atravessamos mais uma ponte sobre o Tejo e passamos para a N118, mas só durante poucos quilómetros; depois da Chamusca e da Estátua do Trabalhador Agrícola, regressamos às estradas municipais e às estradas agrícolas por onde passam os tratores. No posto de controlo de Alpiarça, trinta e oito quilómetros depois de deixarmos Constância, esperava-nos o rosto simpático e sorridente da Filomena, que nos tirou fotos e carimbou os nossos cartões. Partimos e o trânsito muito intenso na estrada, num sábado à tarde, tornou-se enervante. Um carro passou quase a rasar a minha perna. Felizmente, regressamos à estrada esburacada onde só nos cruzamos com um trator e um carro com um atrelado para cavalos. A noite caiu e os buracos exigiam mil cuidados. Cinco farois de cinco randonneurs, tranformaram a noite em dia e permitiram uma travessia tranquila. 
- Penúltimo posto de controlo e última questão: quem assina o graffiti debaixo da ponte é um tal "insider". Eram 18h26 e no horizonte desapareciam os últimos raios do Sol. Atravessamos a ponte Rainha D. Amélia para Porto de Muge e na Valada voltamos ao caminho por onde passamos de manhã. Nem um candeeiro. Escuro como bréu. Atenção! Estrada em mau estado! Ao fim de 190 quilómetros, a resistência começou a quebrar e algumas dores no rabo, nos joelhos, fome e a tentação de parar ameaçavam o nosso objetivo. Ali fazia um frio húmido e o vento voltou a soprar forte. Disse que parar naquele sítio era pedalar para trás e seria melhor aguentar mais um bocado até Azambuja, onde há uma estação de serviço com comida, bebida e casa de banho. Azambuja parece tão longe! Olha que não, disse eu. Já faltou mais. 
Última paragem em Azambuja, aos duzentos quilómetros e continuamos para a etapa final, regressando à estrada da Central Elétrica. Um brevet com poucos carros, por estradas desertas é tão bom, mesmo que as estradas estejam em péssimo estado e os miolos debaixo casco fiquem todos remexidos com os solavancos. 
Era noite quando chegamos, sorridentes e felizes.
Posto de Controlo 9 - Chegada a Vila Franca de Xira- sorriso de orelha a orelha.

O meu agradecimento a todos os que organizaram e se voluntariaram para que este brevet acontecesse e pudessemos pedalar. 
O registo do meu Garmin


"Don't think about doing it.
Don't talk about doing it.
Do it."

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